Teria Donald Trump o duplo efeito de fazer uma mudança de regime na Venezuela em câmera lenta, depois da captura cirúrgica de Nicolás Maduro, e também assistir ao desmanche do estado teocrático iraniano? Seria sorte demais derrubar dois inimigos de uma vez só. Mas o fato é que as manifestações de protesto das últimas semanas estão minando as forças da repressão e há uma mudança de tom. Disse o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghci: “Acreditamos que quando os americanos chegarem à conclusão de que negociações construtivas e positivas, em vez de imposições, são a abordagem, então os resultados dessas negociações darão frutos”.
Note-se que há menos de duas semanas, quando Maduro fazia suas dancinhas em Caracas, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, havia dito que seu país estava “em guerra em escala total com a América, Israel e a Europa”. Com o detalhe de que ele é considerado um relativo moderado, embora seja aconselhável levar em conta uma frase famosa de Henry Kissinger: “Um moderado iraniano é aquele que ficou sem munição”.
Perder a Venezuela, como muito provavelmente virá a acontecer, é um golpe pesado para o regime iraniano, que usava o país para furar sanções e movimentar seus agentes, munidos de passaportes diplomáticos iranianos, nas maquinações para assassinatos e atentados terroristas, felizmente desarticulados, contra alvos americanos e judeus. Mas, segundo a definição clássica, os terroristas só têm que acertar uma vez – e, na Argentina, os iranianos acertaram duas, contra a embaixada israelense em Buenos Aires em 1992 e contra a associação da comunidade judaica em 1994, com um total de 114 mortos.
O momento é péssimo para o regime iraniano. Os protestos começaram com uma mistura de reação à devastação econômica, com a moeda desvalorizada em 40%, e a rejeição ao sistema de controle de autoridades religiosas sobre a política, e continuam a desafiar o regime com a incrível coragem dos manifestantes, que avançam de mãos nuas contra forças pesadamente armadas. Cortar a internet como aconteceu ontem é mais um sinal de que as coisas vão mal.
‘NÃO DEIXE NOS MATAREM’
Antes da operação na Venezuela, Trump havia avisado: “Se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, como é costume deles, os Estados Unidos irão salvá-los. Estamos municiados, carregados e prontos para ir”.
Depois da captura de Maduro, a declaração ganhou outro peso.
Cerca de quarenta pessoas já foram mortas e mais de mil presas. Em redes sociais e até em muros apareceu o apelo: “Presidente Trump, símbolo da paz, não deixe que eles nos matem”.
Nada indica uma intervenção, como foi amplamente armada na Venezuela com a concentração de forças navais no Caribe. Mas a tática de Trump é, evidentemente, deixar os adversários na dúvida.
Tal como o chavismo, o regime teocrático iraniano domina completamente as instituições militares e tem milícias civis. Também tem uma indústria bélica forte e põe grandes quantidades de dinheiro na compra de armamentos, geralmente russos. Em abril, atacou Israel com mais de 300 drones e mísseis. Foi, ao mesmo tempo, uma manifestação de força e de fraqueza: não acertou nada, mas exigiu que forças americanas, britânicas e francesas ajudassem a derrubar os vetores.
PRAGMATISMO GEOPOLÍTICO
Israel reagiu com um ataque coordenado e cirúrgico, contra lideranças do regime e seus sistemas antiaéreos, demonstrando saber exatamente onde estavam quem e o que, num trabalho de longo alcance do Mossad que incluiu a infiltração de mais de cem agentes no país. Não perdeu um único avião. Trump também foi contido, relativamente, mandando um esquadrão de bombardeios B2 para estilhaçar instalações nucleares protegidas no fundo de montanhas.
Foi uma humilhação tremenda para um regime que se considera o precursor da vitória total sobre todo o mundo da religião muçulmana, na sua versão xiita. O Irã também havia “perdido” a Síria, uma peça vital do seu esquema de poder no Oriente Médio. Os Estados Unidos estão fazendo um grande esforço para cooptar o novo regime sírio, relevando suas conexões passadas com a Al Qaeda – é esse o nível de pragmatismo, ou talvez algo mais próximo do cinismo, que o jogo geopolítico demanda. Forças pró-Irã planejam assassinar o presidente Ahmed Al-Sharaa, recebido com rapapés por Trump no Salão Oval.
É, como se vê, jogo de gente grande. Além de prometer ajudar os manifestantes iranianos, Trump repete com frequência que não permitirá a recomposição da estrutura iraniana para fazer bombas nucleares. Foi sobre isso que o chanceler Araghci sugeriu negociar.
B2 É MAIS EFICIENTE
Os dois países já fizeram isso extensamente, concluindo com um acordo na época do governo de Barack Obama. Um acordo ruim: o Irã continuou com todo o aparato dirigido para a fabricação da bomba, enganando inspetores e a vigilância internacional.
Trump concluiu que um B2 é mais eficiente do que acordos furados, feitos para ludibriar a outra parte. Idealmente, hoje, o sistema teocrático iraniano ruiria sem violência e um novo regime estaria menos propenso a fabricar bombas atômicas, inaceitáveis para a sobrevivência de Israel e para o convívio internacional.
Pode não acontecer, pois o regime sobreviveu a várias outras ondas de protestos, mas o momento para seus representantes é de colocar as barbas e os turbantes de molho. Mais disciplinados, os iranianos não vão surtar como, ridiculamente, fez o colombiano Gustavo Petro, ameaçando voltar a pegar em armas, mas não seria bom arriscar.
Como são intrinsicamente incapazes de evitar o poderoso fanatismo religioso que os move e o medo de demonstrar fraqueza num momento de amplos protestos, o gesto do chanceler oferecendo negociações poderá não passar disso, uma tentativa de não provocar os Estados Unidos.
UMA BELA AMIZADE
Mas o Trump pós-Maduro é outro.
Ah, sim, depois de falar com Trump por telefone, por iniciativa própria, Petro postou uma reiteração da sua proposta de cooperação com os Estados Unidos no campo da energia limpa. Baseada, aliás, “na paz, na vida e na democracia global”.
Ilustrando a postagem, uma onça pintada (com a qual Petro pretende simbolizar a Colômbia, embora o animal nacional seja o condor) e uma águia americana amistosamente próximas. Trump o convidou para visitar Washington. Pode ser o início de uma bela amizade. Petro pode parar de se preocupar com helicópteros despejando forças especiais na cobertura do Palácio de Nariño, como confessou que estava fazendo ao jornal El País.
Ah, sim, número 2: a oficialmente anunciada “colaboração energética” da estatal petrolífera venezuelana com os Estados Unidos e a libertação de presos políticos talvez seja um indício de que a pressão de Trump esteja funcionando. Quem ficará, agora, contra a liberdade de presos de um regime opressor?