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Economia de aplicativos provoca mudanças profundas no mercado de trabalho brasileiro

Quando a startup americana Uber desembarcou no Brasil, em 2014, encontrou um cenário bem diferente do atual. À beira da profunda recessão de 2015 e 2016, a taxa de desemprego não demoraria a explodir dos 7% em que flutuava para os quase 14% em que encostou logo depois. Foi naqueles anos de agonia econômica que a Uber e suas similares se espalharam pelas cidades brasileiras, absorvendo desde jovens sem alternativas até profissionais qualificados que passaram a dirigir para atravessar o período de penúria em suas áreas. Uma década depois, o contexto mudou — e o papel dos aplicativos também. Em 2026, o Brasil convive com a menor taxa de desemprego da série histórica, de 5,2%, e com recordes sucessivos de vagas com carteira assinada. Ainda assim, o trabalho mediado por plataformas não apenas sobreviveu ao fim da crise: ele cresceu, ganhou escala e se tornou parte permanente do funcionamento do mercado de trabalho. Mais do que um efeito colateral da recessão, os aplicativos e sua base tecnológica passaram a integrar a força econômica do país.

O contingente de trabalhadores por plataformas digitais cresce hoje em ritmo superior ao do mercado como um todo e já garante renda a quase 2 milhões de pessoas. Uma pesquisa feita pelo IBGE indica que, de 2022 a 2024, o número de ocupados em atividades mediadas por aplicativos avançou 25%, enquanto o total de empregados do setor privado cresceu pouco mais de 3% no mesmo período. Trata-se de uma expansão que não se explica apenas pela falta de alternativas, mas se deve também a escolhas individuais.

À luz do que se via há dez anos, seria razoável supor que motoristas e entregadores migrariam de volta para o emprego formal à medida que a economia se recuperasse. O que se observa é o inverso. Em muitos casos, são os aplicativos que atraem profissionais que já estavam empregados, oferecendo algo que o mercado tradicional ainda tem dificuldade de entregar: flexibilidade, autonomia e possibilidade de elevar a renda conforme o esforço pessoal. Para trabalhadores com menor escolaridade, por exemplo, a renda média obtida por aplicativos pode superar em mais de 40% a de ocupações convencionais.

Do ponto de vista macroeconômico, os impactos do fenômeno são evidentes — e duradouros. Estudos internacionais indicam que a economia de plataformas contribui para elevar a taxa de participação no mercado de trabalho, reduzir períodos de inatividade e aumentar a eficiência das economias ao conectar oferta e demanda de forma mais rápida. No Brasil, esse papel aparece com clareza. Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, afirma que os aplicativos funcionam como um colchão relevante contra o desemprego. Em estudo divulgado em novembro, ele mostra que trabalhadores com maior acesso às plataformas têm mais chance de estar ocupados, ganham mais do que outros perfis e apresentam renda mais constante. “Os aplicativos criam uma história muito positiva para o mercado de trabalho”, diz Duque. “Uma pessoa que não tem o aplicativo como opção fica sem renda quando perde o emprego. Quem tem consegue trabalhar.”

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QUERO SER CLT - Ricardo Miranda, 46 anos, começou a trabalhar como entregador há três anos, depois de ser demitido da loja onde dava expediente. Embora ganhe mais, ainda gostaria de voltar à vida de CLT. “Vou juntando dinheiro.”
QUERO SER CLT – Ricardo Miranda, 46 anos, começou a trabalhar como entregador há três anos, depois de ser demitido da loja onde dava expediente. Embora ganhe mais, ainda gostaria de voltar à vida de CLT. “Vou juntando dinheiro.”Claudio Gatti/.

Os efeitos vão além do emprego e da renda. Ao longo do tempo, a expansão das plataformas tem reorganizado cadeias produtivas inteiras. Restaurantes que jamais teriam escala para operar salões passaram a existir graças ao delivery. Pequenos comércios ganharam alcance. A logística urbana se digitalizou. O transporte individual se tornou mais acessível e eficiente. Em estudos sobre produtividade urbana, há evidências de que o uso intensivo de aplicativos de mobilidade melhora o acesso de determinados grupos ao mercado de trabalho, reduz tempos improdutivos de deslocamento e gera ganhos indiretos para as cidades.

Plataformas como Uber, 99, iFood, Zé Delivery, Loggi, Lalamove e a chinesa Keeta — que iniciou operações em São Paulo no fim de 2025 — tornaram-se indispensáveis na vida cotidiana das grandes cidades. Para muitas pessoas, o próprio significado do trabalho mudou. “Depois da pandemia, muitas delas começaram a prezar por mais qualidade de vida e, querendo ou não, o avanço das plataformas oferece novas alternativas”, afirma Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence.

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O Brasil se tornou um dos principais laboratórios dessa nova realidade. No ano passado, a Uber informou ter cerca de 30 milhões de usuários ativos no país e uma rede de mais de 1,4 milhão de motoristas e entregadores cadastrados. Esse contingente coloca o Brasil entre os maiores mercados da empresa no mundo em número de parceiros, ao lado dos Estados Unidos e da Índia. O peso dessa base não é apenas estatístico: ela influencia decisões de investimento, testes de produtos e debates regulatórios globais da plataforma. O fenômeno, no entanto, traz um debate inevitável. Nenhum país consegue sustentar seu desenvolvimento apenas com trabalho informal mediado por aplicativos. O desafio passa a ser encontrar um ponto de equilíbrio entre flexibilidade de trabalho, geração de renda e algum nível de proteção social.

No Reino Unido, a Suprema Corte decidiu, em 2021, que motoristas de aplicativos integram uma categoria intermediária entre empregados e autônomos, com direito a salário mínimo nacional e férias remuneradas desde o momento em que ingressam numa plataforma. Nos Estados Unidos, o modelo varia por estado. A Califórnia tentou reclassificar trabalhadores de apps como empregados, mas os eleitores aprovaram uma norma que mantém motoristas e entregadores como contratados independentes, ainda que com alguns benefícios mínimos. Outros estados adotam soluções diferentes, criando um mosaico regulatório que torna o cenário confuso.

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MAIS LIBERDADE – O primeiro trabalho de Vitor Filipe, 22 anos, foi como entregador de app. Depois, atuou como empregado em uma vidraçaria, mas pediu demissão. “Hoje, tenho liberdade.”Claudio Gatti/.

O Brasil ainda busca sua própria solução. A discussão em torno do Projeto de Lei Complementar 152/2025 reflete esse impasse: como garantir proteção sem desmontar um modelo que gera renda, amplia escolhas e responde rapidamente a choques econômicos. As plataformas alertam para o risco de engessamento e aumento de custos, enquanto sindicatos cobram direitos básicos. No meio do caminho, o governo tenta arbitrar uma equação complexa. Segundo especialistas, o crescimento explosivo da economia de aplicativos não deve se repetir indefinidamente. Há limites econômicos, urbanos e demográficos para a absorção de novos motoristas e entregadores. À medida que o mercado amadurece, o ritmo de entrada tende a desacelerar, e o setor passa a conviver com regras mais claras e maior profissionalização. Os aplicativos, obviamente, não vão substituir o mercado formal e, sim, complementá-lo. A economia de plataformas seguirá relevante e integrada a um mercado de trabalho cada vez mais diverso.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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