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É hora de game over: o que está por trás da revolta de usuários da Roblox

O universo pixelado da Roblox, plataforma de criação e disputa de jogos on-line, habitado diariamente por mais de 150 milhões de usuários, transformou-se nos últimos dias em palco de manifestações. Em cidades fictícias como Brookhaven, avatares infantis bloquearam ruas com caminhões e ergueram placas de protesto. “Quero injustiça”, era um dos dizeres, muitos deles confusos, quase todos escritos intencionalmente em português torto. O motivo das passeatas virtuais: as diretrizes de segurança implementadas pela empresa no último dia 7. Em um passo para estar alinhada com as legislações globais e, no Brasil, com o novo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital — sancionado em setembro de 2025 —, a ferramenta impôs regras rígidas de comunicação. O novo sistema estabelece uma segregação etária relevante: o chat de voz e texto agora exige verificação de identidade por reconhecimento facial ou apresentação confirmada de documentos. Sem isso, crianças menores de 9 anos só interagem com usuários de até 13 anos; o diálogo irrestrito entre faixas etárias distantes foi bloqueado para impedir que adultos contatem menores de 16 anos.

O youtuber Felipe Bressanim Pereira, o Felca, que ganhou notoriedade no ano passado ao denunciar casos de “adultização” e pedofilia nas redes, se postou ao lado da Roblox — em gesto correto e coerente com seu histórico de militância. Não demorou, é claro, para que fosse vítima da ira, supostamente infantojuvenil, mas sabe-se lá quem saiu gritando. “Você arruinou a vida de todo mundo”, esbravejou alguém em áudio revelado pelo influencer.

INOCÊNCIA E COERÊNCIA - No computador: liberdade irrestrita é contraindicada no ambiente virtual
INOCÊNCIA E COERÊNCIA – No computador: liberdade irrestrita é contraindicada no ambiente virtualRiccardo Milani/Hans Lucas/AFP

Felca, convém sublinhar, é considerado, por parte da comunidade infantil (muito possivelmente alimentada pelo desdém dos pais), o responsável pelo “fim da farra” de mecanismos como a Roblox e congêneres, a exemplo do Discord, canal de conversas que, invariavelmente, derivava para coisas ruins. Lembre-se com estridência e louve-se a corajosa postura do cabeludão que fez barulho do bem: seu vídeo viral Adultização, publicado em agosto de 2025, expôs subculturas tóxicas e a exploração infantil na plataforma, alcançando métricas recordes e impulsionando debates legislativos. É compreensível, embora inaceitável, que ele seja posto agora no cadafalso dos cancelamentos.

Há, como sempre na ágora do vale-tudo das redes, quando não é controlada com sensatez, ruído estranho. No episódio de agora, aliás, a presença de cartazes como “afasta de nois esse cale se pai” — referência direta à canção Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, hino contra a ditadura militar — levanta suspeitas sobre a autenticidade demográfica das reclamações. Discussões em fóruns como o Reddit sugerem que adultos mal-intencionados estariam incitando as crianças ou se passando por elas para desestabilizar as regras. A polícia alerta que o chat aberto era a principal porta de entrada para criminosos criarem vínculos de confiança com menores.

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Diante da repercussão, a Roblox emitiu um comunicado, dizendo ser a proteção a menores inegociável. “Essas mudanças foram projetadas para ajudar a proteger nossos usuários, especialmente os mais jovens”, pontuou a nota. “A comunicação é uma parte fundamental da experiência e acreditamos que essas medidas são importantes para a segurança de nossa comunidade a longo prazo.” Na mosca.

ATAQUES - Felca, que denunciou episódio de pedofilia e “adultização” de crianças nas redes sociais: gritos de supostas crianças que seriam usuárias da comunidade (ao lado)
ATAQUES - Felca, que denunciou episódio de pedofilia e “adultização” de crianças nas redes sociais: gritos de supostas crianças que seriam usuárias da comunidade (ao lado)@felca0/Instagram; @Felcca/X

A urgência das medidas da Roblox é corroborada por dados alarmantes da SaferNet Brasil. Em 2025, 64% das denúncias recebidas envolviam abuso e exploração sexual infantil. Houve um pico de denúncias coincidente com a viralização do vídeo de Felca. Além disso, a entidade alerta para o crescimento do uso de inteligência artificial para criar material de abuso (“nudificação”) a partir de fotos de crianças.

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Enquanto a “guerra civil” digital no éter prossegue, é fundamental sublinhar o papel seminal da família na eterna vigilância. “Como qualquer atividade on-line, os pais devem prestar atenção ao que seus filhos estão fazendo e ter uma conversa”, diz Matt Kaufman, diretor de segurança da Roblox. A proteção imperativa contra barbaridades colide com a cultura de liberdade irrestrita de uma geração que nunca conheceu outro mundo, à sombra de predadores eletrônicos. Não pode ser assim, e a Roblox vai no bom caminho.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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