Eu não tenho simpatia por Nicolás Maduro, mas… Quantas vezes esta frase foi repetida desde o dia 3, em suas muitas variações? Como sempre, o importante é o que vem depois do “mas”. Nesse caso, tentativas de estabelecer uma equivalência moral entre um regime maligno e a intervenção heterodoxa de Donald Trump para levá-lo à Justiça americana. São tentativas que denotam enorme torpeza moral: os dois lados não são iguais nem comparáveis. Os bolivarianistas torturavam adolescentes com choques elétricos. Há bons argumentos para considerar que a intervenção de Trump extravasa as regras do direito internacional — um esforço nem sempre bem-sucedido de proteger os fracos, não os malditos como Maduro e seus cupinchas. Mas nem remotamente se compara aos abusos verificados, entre outras origens, em relatórios feitos por Michelle Bachelet quando foi alta-comissária da ONU para Direitos Humanos. Ela não pode ser acusada de simpatias direitistas: foi presidente do Chile duas vezes pelo Partido Socialista e é filha de um general-brigadeiro da Força Aérea, Alberto Bachelet, torturado por ser contra o golpe militar de Pinochet, tendo morrido do coração quando estava em cárcere da ditadura de ultradireita.
Estabelecida a degradação argumentativa dos que se abrigam nas trincheiras do “aomesmotempismo” para não parecer, livrem-nos os céus, ver alguma coisa boa no que Trump faz, resta o primordial: o que vai acontecer na Venezuela? É um campo que continua em aberto. No seu permanente transe antitrumpista, o The New York Times chegou a dizer que Trump abriu “uma nova era de risco” com a intervenção na Venezuela. Ora, quem pode estar no comando da maior superpotência da história sem correr riscos? Foi o que fez Barack Obama quando aprovou, em 2011, as operações que redundaram na morte de Bin Laden no Paquistão e na pulverização, num ataque de drone no Iêmen, de um dos operadores da Al Qaeda, Anwar Al-Awlaki, ainda por cima, cidadão americano. Ao contrário, o desejo de minimizar riscos, como no caso de Joe Biden, conduziu a uma desastrosa retirada do Afeganistão em 2021, que corroeu o prestígio dos EUA.
“Quando os tiranos e corruptos perdem o sono, ganhamos todos”
É o prestígio americano que também está em jogo na Venezuela. O espírito de colaboração da presidente interina, Delcy Rodríguez, não vai redundar num regime comandado permanentemente pelos minions de Maduro. A autoridade dos EUA sairia gravemente prejudicada. Em contrapartida, Trump tem que considerar a oposição da opinião pública americana e da ala isolacionista de seu próprio Partido Republicano a qualquer tipo de envolvimento militar de médio ou longo prazo. Um governo de transição negociada é alternativa menos traumática. Enquanto isso, durmamos tranquilos pensando nos que não o podem fazer, desde as mesquitas onde batem no peito integrantes do regime teocrático iraniano, atormentados pelo pesadelo de uma frota de Chinook pousando no quintal, até as salas de reunião de partidos de esquerda da América Latina, confrontados com a possibilidade de que sejam comprovadas as malas de dinheiro procedentes da Venezuela. Quando os tiranos e corruptos perdem o sono, ganhamos todos.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977