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Descoberta indica que os primeiros humanos anteciparam as ‘guerras químicas’

É fascinante. Um conjunto de flechas descoberto em 1985, na África do Sul, acerta em cheio na compreensão de como os primeiros homens e mulheres planejavam suas caçadas, há 60 000 anos. Pesquisadores examinaram com mais atenção as setas e descobriram resíduos de substâncias venenosas, revelando níveis avançados de raciocínio e planejamento estratégico por parte dos caçadores. A revelação foi detalhada na semana passada em artigo da prestigiosa revista Science Advances.

Encontrados na formação de Umhlatuzana, um sítio arqueológico na província de KwaZulu-Natal, os artefatos ficaram em coleções de museus, até que um grupo de cientistas de vários países decidiu reexaminar as dez pontas que ainda apresentavam resíduos. São pedaços de quartzo, com marcas de impacto que indicam o uso como projéteis. Cinco delas continham buphanidrina, e uma outra, notas de epibuphanisina — as duas substâncias estão presentes nas folhas de uma planta, a Boophone disticha, abundante no sul da África e comprovadamente tóxica.

VIETNÃ - Bombardeio de napalm nos anos 1960: vegetação totalmente destruída
VIETNÃ - Bombardeio de napalm nos anos 1960: vegetação totalmente destruídaPictures From History/UIG/Getty Images

A comparação com flechas envenenadas coletadas há apenas 250 anos mostrou o mesmo “padrão químico”, o que fortaleceu a interpretação de que se trata de uso intencional de toxinas vegetais, e não de contaminação acidental. A presença de resíduos químicos ilumina outra certeza: os fragmentos de quartzo encontrados não eram apenas ferramentas de corte, mas pontas de flechas projetadas para carregar veneno. O funcionamento é realmente engenhoso: as pontas são leves e feitas para se desprenderem da haste, ficando alojadas no animal de modo a liberar os químicos na corrente sanguínea.

O uso estratégico de flechas envenenadas revela que os humanos tinham uma compreensão profunda da ecologia e do comportamento de suas presas. Eles sabiam que, quando o veneno entrasse na corrente sanguínea através de uma pequena ferida causada pelo impacto da pedra lascada, a presa enfraqueceria progressivamente, facilitando a captura. “Como o veneno não é uma força física, mas age quimicamente, os caçadores também devem ter se baseado em planejamento avançado, abstração e raciocínio causal”, escreveu em um artigo a professora Marlize Lombard, cientista da Universidade de Joanesburgo envolvida no estudo.

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Esses resíduos são evidências de uma fase de inovação rápida e cumulativa na África. A transição para armas leves e complexas (flechas com setas envenenadas) em vez de lanças pesadas marca um salto na complexidade comportamental em comparação com os caçadores e coletores modernos. Antes desse estudo, as evidências mais antigas de veneno datavam de apenas cerca de 4 000 a 7 000 anos atrás. Encontrar essa tecnologia em tempo tão remoto prova que a “caixa de ferramentas cognitiva” do Homo sapiens tem mais história do que se imaginava.

FILTRO - Soldados usam máscaras: proteção necessária contra armas gasosas
FILTRO - Soldados usam máscaras: proteção necessária contra armas gasosasRoberto Schmidt/AFP

O uso de veneno no Pleistoceno, período em que as flechas estudadas teriam sido usadas, pode ser visto como o momento em que a humanidade deixou de usar apenas a força bruta e o impacto de uma pedra ou osso e começou a desenvolver a aplicação de um código químico para atingir seus objetivos. É uma lógica que, embora em contextos muito diferentes, fundamenta a manipulação química moderna. O napalm usado durante a Guerra do Vietnã, nos anos 1960 e 1970, para eliminar instantaneamente a vegetação e expor os vietcongues, e as armas químicas despejadas nos rebeldes sírios que lutavam contra o regime de Bashar al-Assad são uma exacerbação desse laço longínquo.

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Sabíamos, portanto, lá atrás, como matar com crueldade. Não havia a tecnologia atual, as redes sociais não alimentavam a polarização e tampouco as fake news tratavam de inventar o que não existe — mas já se ensaiava o horror contra pessoas e bichos, ainda que por necessidade de sobrevivência. Sem o veneno original talvez não chegássemos até aqui, e é fundamental saber como andava a roda nos primórdios.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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