“Não tenho que usar a força. Não quero usar a força e não vou usar a força”. Pronto, falou. A promessa de Donald Trump trouxe um grande alívio ao mundo.
Ele também acalmou os aliados europeus. “Quero que a Europa se dê muito bem”, proclamou, contrariando as almas atormentadas que enxergam um iminente racha na Otan e o fim do mundo tal como nós o conhecemos. Em vez de um discurso alucinado, o presidente americano fez um arrazoado sobre os motivos dos problemas europeus, as propostas que faz para resolvê-los e a forma como os está aplicando nos Estados Unidos
Abrir novos poços de petróleo, fechar turbinas de vento, controlar a imigração, promover uma política econômica de crescimento e não de encolhimento ancorado em amplas iniciativas de restrições ambientais. Fronteiras fortes e eleições fortes também. Não existe nada de radical nisso, no sentido de extremismo fora do espectro político. São políticas tradicionais de direita – embora raramente defendidas com a ênfase e os termos assumidos de Trump diante de uma plateia de ricos envergonhados de dizer que pensam algo muito parecido.
Trump lembrou sua origem 100% europeia – escocês por parte de mãe, alemão por parte de pai – para defender que a Europa, “que agora não reconheço”, precisa redirecionar suas prioridades e reencontrar o espírito que criou os fundamentos da civilização ocidental. É exatamente o que dizem políticos europeus de direita.
À sua moda, também fez gestos em direção aos principais envolvidos na questão do momento.
“Tenho tremendo respeito pelo povo da Groenlândia e o povo da Dinamarca”, proclamou, para em seguida lembrar que a Dinamarca resistiu à invasão nazista durante exatamente seis horas (ajudou, claro, que a Alemanha hitlerista não queria estraçalhar o país e via os dinamarqueses como parte da raça superior, não como inferiores que eventualmente deveriam todos ser eliminados, como os povos eslavos, para não falar nos judeus).
E insistiu: “Devolvemos a Groenlândia depois de derrotar os alemães, os japoneses, os italianos e os outros na II Guerra”. Tudo verdade.
‘UM PEDAÇO DE GELO’
Erradamente, Trump disse que os Estados Unidos defenderam a Europa da União Soviética “sem nunca ter nada de volta”. Ao contrário, tiveram tudo de volta: a contenção do comunismo, a hegemonia mundial e, no fim, a vitória na Guerra Fria sem guerra nem violência..
Na visão de Trump, o Canadá também “leva muitas coisas grátis dos Estados Unidos “– e o primeiro-ministro Mark Carney “deveria se lembrar disso no seu próximo discurso”. Até Israel entrou na dança, com o sistema de defesa antiaérea da cúpula de ferro que Trump reivindicou para os Estados Unidos.
“Só peço de volta um pedaço de gelo”, argumentou, Obviamente, as questões de soberania e autodeterminação fazem da Groenlândia muito mais do que “um pedaço de gelo”.
“Se vocês disserem sim, ficaremos gratos. Se disserem não, nós nos lembraremos”.
Transformada numa conferência de cúpula com questões existenciais de curtíssimo prazo envolvidas, a conferência de Davos, em lugar de palestras de milionários e políticos impressionados com tudo de bom que o dinheiro pode produzir, está vivendo momentos transcendentais.
COMENTÁRIO MALDOSO
O discurso de Trump não foi radical nesse sentido. Não impôs ultimatos ou anúncios de invasão. De alguma maneira, foi um alívio.
Melhor suas reclamações sobre o “pedaço de gelo”, as queixas (fundamentadas) de países que vendiam seus produtos nos Estados Unidos e respondiam com tarifas pesadas no sentido oposto, e até o comentário maldoso sobre os óculos escuros usados onde por Emmanuel Macron – “Qual teria sido o motivo?” – , do que um conflito autodestrutivo e absurdo, implicando na dissolução da aliança atlântica, um dos pilares da ordem mundial.
Ao descartar o uso da força, ele acalmou o planeta. Trump pode gostar de chacoalhar a ordem constituída, mas não foi dessa vez que a desmantelou.
No mais, fez o mesmo que fazem todos os outros políticos do mundo e exaltou a si mesmo e a seus feitos, como já havia feito ontem, ao completar um ano de governo. No clima atual, foi uma tremenda notícia boa.