Mais de meio século após a última pegada humana ter sido deixada no solo lunar, a Nasa está de volta com um programa que promete não apenas repetir o feito, mas estabelecer uma presença permanente no espaço profundo. Batizada de Artemis, a nova missão da agência espacial americana carrega um nome que é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao passado e uma declaração de intenções para o futuro da exploração espacial. Para entender essa escolha, é preciso mergulhar tanto na mitologia antiga quanto nos ideais de diversidade da ciência moderna.
Na mitologia grega, Ártemis é a irmã gêmea de Apolo. A escolha é poeticamente estratégica: entre as décadas de 1960 e 1970, o programa que levou os primeiros seres humanos à Lua chamava-se Apolo. Ao batizar a nova era como Ártemis, a Nasa estabelece uma conexão direta com o legado de seu antecessor, sugerindo que este é o próximo passo natural de uma mesma linhagem de exploradores. Enquanto Apolo era associado ao Sol e à lógica, Ártemis era a deusa da Lua e da caça, personificando a própria meta que a agência pretende alcançar.
Contudo, a escolha vai além da genealogia mitológica. O programa Ártemis nasce com o compromisso de corrigir uma lacuna histórica: embora doze homens tenham caminhado na Lua no século passado, nenhuma mulher jamais teve essa oportunidade. Ártemis, conhecida por sua força, independência e domínio sobre os territórios selvagens, torna-se o símbolo ideal para uma missão que levará a primeira mulher e a primeira pessoa negra à superfície lunar. É um sinal de que a exploração do cosmos agora busca refletir toda a diversidade da humanidade.
O cronograma para transformar esse simbolismo em realidade já está em curso. Após o sucesso da missão não tripulada Ártemis I, o próximo grande marco será a Ártemis II, prevista para o fevereiro. Nesta fase, quatro astronautas subirão a bordo da cápsula Orion para orbitar a Lua, testando todos os sistemas de suporte à vida sem realizar o pouso. O momento mais aguardado ocorrerá com a Artemis III, planejada para os anos seguintes, que finalmente levará a tripulação ao Polo Sul lunar, uma região de interesse científico extremo devido à presença de gelo de água.
Olhando para o horizonte, o programa não termina com o pouso. As missões subsequentes focarão na construção da Gateway, uma estação espacial na órbita lunar que servirá como porto de parada e laboratório. O objetivo final é a sustentabilidade: aprender a viver e trabalhar em outro mundo para que, em um futuro não tão distante, a Lua sirva de trampolim para o salto definitivo da nossa espécie em direção a Marte.