O que vai acontecer na Venezuela? Duas mulheres disputam a narrativa – e o poder -, numa situação jamais vista antes, em que o ditador é extraído como um dente podre e o sistema continua intacto, mas sujeito a exigências impostas por Donald Trump. María Corina Machado certamente seria eleita presidente se houvesse uma transição democrática segundo os padrões conhecidos. Como o que estão sendo seguidos são padrões desconhecidos, Delcy Rodriguez pode muito bem reivindicar um deslocamento bem lento em direção à normalização, permitindo que continue à frente do regime do qual sempre foi uma defensora feroz.
A originalidade do plano de Trump, muitos chamariam de contradição, pode ser retratada nos movimentos da semana passada. Trump falou com Delcy por telefone e o diretor da CIA, John Ratcliffe, foi a Caracas conversar com ela. Imaginem só a suprema ironia: o homem da CIA falando com chavistas – ou até dando ordens, segundo a lógica. Na mesma semana, María Corina se encontrou com Trump na Casa Branca, mas sem entrevista coletiva nem fotos, exceto a do momento em que Trump aceita o Nobel da Paz que ela ofereceu. Foi uma tentativa de superar um óbvio afastamento por parte de Trump.
Pela proximidade – cautelosa – com o presidente, María Corina virou alvo da mídia antitrumpista, criticada e ridicularizada por jornalistas que não teriam um milésimo da coragem dela quando enfrentou toda a estrutura repressiva dominada pelo chavismo e, punida com a inelegibilidade, conseguiu 70% dos votos para o candidato que a substituiu de última hora, Edmundo González.
Corina é detestada nessas esferas porque é de direita e não faz nenhuma questão de disfarçar isso, além de demonstrar enorme gratidão por Trump, mesmo tendo sido escanteada no que seria uma transição “normal”: voltaria à Venezuela imediatamente depois da captura de Maduro e seria eleita já sob um novo regime.
‘MUDANÇA SEM MUDANÇA’
Nada do que está acontecendo, evidentemente, é normal. Os Estados Unidos empregaram, concentradamente, todo o poder incomparável de sua máquina bélica para tirar Maduro, mas optaram por uma mudança de regime sem mudança de regime. Ou uma mudança em fases, refletida na dolorosamente lenta libertação de presos políticos e nos acordos, já em execução, pelos quais os Estados Unidos pegam o petróleo venezuelano, vendem no mercado e mandam o dinheiro de volta, depois, claro, de tirar a sua parte.
Essa “mudança sem mudança” foi defendida pela CIA, propositora da ideia de que Delcy Rodríguez estava aberta a conversações, digamos. Uma fonte da CIA disse ao New York Times que uma prova era o vestido muito capitalista de “15 mil dólares” que ela usou na posse.
A CIA deveria verificar melhor suas fontes: o vestido verde com babados na manga e drapeados laterais, uma combinação que ficaria melhor em mulheres com a altura de Melania Trump ou a magreza da princesa Kate, custa o equivalente a 700 dólares na grife italiana Chiara Boni. É caro, mas não completamente absurdo, considerando-se que as mulheres chavistas, como Delcy ou a atualmente reclusa Cilia Flores, usam marcas muito mais fora do padrão. A ex-primeira-dama, por exemplo, vivia de Chanel na mão.
María Corina, que é de família rica, de industriais siderúrgicos, ao contrário, transformou em uniforme o jeans de cintura baixa com camiseta branca com as cores venezuelanas quando fez a campanha presidencial. Depois de fugir da Venezuela, numa operação perigosíssima conduzida pela organização de um ex-agente especial dos Seals, voltada para extrair cidadãos americanos de países onde correm riscos, ela passou a usar roupas brancas, como outras mulheres poderosas. A grife geralmente é Carolina Herrera, venezuelana que foi a fundadora da marca americana.
LIGAÇÃO COM CARLOS, O CHACAL
Delcy Rodriguez, ao contrário, é esquerdista de família. Seu pai criou um grupo de luta armada e foi morto sob tortura, depois de sequestrar um empresário americano. Mais recentemente, veio à tona a informação de que sua mãe teve um relacionamento daqueles de série da Netflix com Ilich Ramírez Sánchez, ou Carlos, o Chacal, o responsável por espetaculares atentados terroristas nos anos setenta, abduzido pela França no Sudão e condenado a três prisões perpétuas – na cadeia, “converteu-se” ao extremismo islamista e se casou com a advogada francesa. Só de filmes inspirados nele, foram sete.
Com esse currículo, Delcy Rodriguez, que morou na França e nos Estados Unidos, fala as línguas correspondentes e se expressa bem, apesar de ter se tornado infame pela frase “Na Venezuela, não existem fome nem crise humanitária”, enquanto milhões de pessoas sem comida fugiam para outros países, deveria ser a última das chavistas a se entender com os americanos e correr o risco, como acontece agora, de ser acusada de traidora.
Está, no entanto, se firmando como interlocutora viável e conveniente aos planos do governo Trump, focados em derrubar Maduro sem desencadear uma situação caótica com o desmanche de um regime já fracassado, mas com total controle de todas as instituições. Tudo o que Trump não queria era mais venezuelanos fugindo para os Estados Unidos.
Mas conseguirá o objetivo oposto, de atraí-los de volta para uma Venezuela livre? Tudo depende de como for a transição rumo a um regime democrático. Hoje, se houvesse eleições, María Corina seria amplamente favorecida. Por mais que analistas antitrumpistas tentem pintá-la como intransigente demais, foi justamente isso que alimentou a força telúrica usada para desafiar o regime. Segundo uma pesquisa encomendada pela Economist, ela tinha quase 50% dos votos, contra 11% para Delcy.
’COMUNISTA CONVICTA’
Há outras figuras da oposição, como Henrique Capriles e Juan Guaidó, além de Leopoldo López, exilado na Espanha. Ninguém está correndo para voltar à Venezuela, considerando-se que o aparato repressivo continua intacto. A cautela é justificada. O mais agressivo integrante da cúpula chavista, Diosdado Cabello, continua cuspindo fogo. A ele respondem os serviços policiais e de inteligência, com enorme influência e presença cubana, mas os americanos estão plantando que Cabello também entrou na turma da colaboração.
Para dar uma ideia da influência cubana, morreram, segundo o chefão militar, general Vladimir Padrino, 45 integrantes das forças de segurança na operação de captura de Maduro. Os cubanos mortos foram 32. Ou seja, tinham quase metade das posições mais próximas ao ex-poderoso.
Irão os cubanos e outros agentes hostis aos Estados Unidos, como os iranianos que operam as armas (fracassadas) vendidas ao país, deixar a Venezuela, como exigem os americanos. Irá um elemento mais comprometido, como Cabello, ou outra das facções em que o regime está dividido, tentar derrubar Delcy, acusando-a de traição? Irão Delcy e María Corina representar as forças principais que definirão o futuro da Venezuela?
Numa palestra na Heritage Foundation, María Corina definiu a presidente interina como uma comunista convicta e defendeu um plano de liberalização econômica. Em outras ocasiões, já elogiou o libertarianismo de Javier Milei. Obviamente, como toda política de direita, venera Margaret Thatcher e há partidários que a chamam de Dama de Ferro da América Latina. Ao contrário da líder britânica, que fez sua admirável carreira num país civilizado, onde política não implica riscos de cadeia ou coisa pior, Corina arriscou a vida, literalmente, por seus ideais.
TEMPERATURA PODE AUMENTAR
As duas são de pequena estatura e faixa etária semelhante – 56 anos Delcy, 58 María Corina. A presidente interina tem um aliado importante entre os componentes civis do regime, seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. Ele cultivou a imagem de ser mais aberto a negociações, mas quem está falando agora diretamente com os americanos é ela.
Quando Corina voltar ao país que pretende presidir, com o voto legítimo da população, a temperatura pode mudar muito e os oprimidos venezuelanos, atualmente cautelosos, se revoltarem para fazer figurões do regime pagarem pelo sofrimento infligido ao país em tão larga escala. Pode haver também uma briga interna entre os chavistas pelo poder. Ninguém imagina que aceitem alegremente perder todas as benesses acumuladas em 25 anos de regime.
Um dos maiores mistérios, entre tantos que cercam a Venezuela, é por meio de que canais o dinheiro do petróleo voltará ao país. Qualquer caminho através do regime seria ilegítimo – e totalmente inconfiável.
Trump, ao contrário da imagem vendida pelo antitrumpismo dominante, está sendo moderado, embora heterodoxo e obviamente embriagado pelo sucesso da captura de Maduro, no exercício do enorme poder americano. Com exceção dos absurdos em relação à Groenlândia, limitou-se a autorizar a abdução de Maduro, sem chacoalhar as demais estruturas, e evitou atacar o Irã, apesar das ameaças de morte que proferem os malucos de turbante. O mundo vive momentos de tirar o fôlego e o confronto entre Corina e Delcy é apenas uma parte desse psicodrama em escala global – com a diferença de que muitas vidas humanas estão envolvidas.