MADRI* – Em seu primeiro consenso clínico sobre o tema, a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC, na sigla em inglês) lançou nesta sexta-feira, 29, recomendações sobre a relação entre saúde mental, como depressão e ansiedade, e doenças cardiovasculares, alertando para a necessidade de acompanhar e rastrear ambas as condições pelo potencial que uma tem de aumentar o risco da outra. O documento, publicado no European Heart Journal, foi apresentado durante a reunião anual da entidade, realizada em Madri, na Espanha.
A proposta do consenso é fazer uma mudança cultural na rotina dos consultórios — atualmente, os médicos não consideram o cruzamento entre essas doenças na rotina de atendimentos — para que o tratamento dessas enfermidades seja feito de forma integrada. Isso porque pessoas que enfrentam problemas de saúde mental têm risco aumentado de desenvolver quadros de arritmias relacionadas a episódios de morte súbita cardíaca. Na mesma linha, pacientes com enfermidades no coração têm probabilidade aumentada de impactos na saúde mental. E os piores desfechos de saúde são esperados em quem tem ambos os quadros.
A proposta do Comitê de Diretrizes de Prática Clínica da ESC é de que haja suporte às demandas de saúde mental dos pacientes com doenças cardiovasculares, inclusive com o rastreamento para identificação de pessoas ainda não diagnosticadas. Para quem já é tem diagnóstico de ansiedade, depressão ou outros quadros, a orientação é fazer a avaliação regular para verificar o risco cardiovascular.
Outro ponto que é sejam desenvolvidas estratégias para melhorar a saúde mental da população em geral, o que pode ter impacto na redução das condições que afetam o coração. Esse pensamento na população global, inclusive, norteou a recomendação.
“Não havia guidelines e tivemos de rever os estudos (sobre o tema) desde o começo. Nós não apontamos apenas o impacto da saúde mental nos pacientes com doenças cardiovasculares, mas na população em geral. A prevalência de depressão está em torno de 5% e não há um programa contra os riscos cardiovasculares”, explicou, em coletiva de imprensa, Héctor Bueno, professor do Centro Nacional de Pesquisa Cardiovascular (CNIC) e do Departamento de Cardiologia do Hospital Universitario 12 de Octubre, em Madri.
O consenso foi elaborado por um grupo internacional de especialistas e prevê a criação de equipes psico-cárdio, composta por cardiologistas e psicólogos ou psiquiatras, para realizar a triagem dos pacientes e determinar tanto os riscos psicológicos quanto os que envolvem o coração. O documento foi apoiado pela Federação Europeia de Associações de Psicólogos, a Associação Psiquiátrica Europeia e a Sociedade Internacional de Medicina Comportamental.
“Nós precisamos educar a população e os profissionais, não apenas os cardiologistas, mas na atenção primária. É desafiador para o sistema de saúde, mas isso tem de acontecer. E com o cuidado integrado, por isso, falamos em equipes psico-cárdio”, disse Bueno.
Riscos dos problemas de saúde mental
O consenso foi elaborado em um cenário de falta de diretrizes robustas sobre como lidar com a saúde mental no contexto da cardiologia em um mundo com mais pessoas enfrentando depressão, ansiedade e transtornos mentais graves, algo intensificado pelas incertezas, perdas, medos e isolamento desencadeados pela pandemia de covid-19. Essa situação faz com que se torne cada vez mais necessário abordar questões que envolvam a saúde mental e seus desdobramentos no organismo.
“Queremos aumentar o conhecimento. Quando olhamos as evidências, encontramos que uma em cada três pessoas com doenças cardiovasculares têm problemas de saúde mental e isso é duas vezes maior entre mulheres. E nem todos os sistemas de saúde estão preparados para fazer o manejo disso. Então, recomendamos a triagem para encontrar essas pessoas e entregar o nível de cuidado que elas precisam”, disse, também em coletiva, Christi Deaton, professora emérita de Enfermagem da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e coautora do estudo.
Esse primeiro documento ainda necessita de dados sobre como prevenir doenças cardiovasculares em pessoas que lidam com problemas de saúde mental, como tratar casos dessas comorbidades e o estabelecimento de escores de risco cardiovascular para pessoas deprimidas, com ansiedade ou estresse pós-traumático. Esse marcador é importante porque são pacientes que acabam negligenciando hábitos saudáveis, como praticar atividade física e se alimentar bem, de modo que abrem portas para as enfermidades cardíacas, como as arritmias.
A literatura médica tem lacunas a serem preenchidas, mas alguns dados já aparecem em estudos mais atualizados e que têm como foco enxergar o paciente como um todo para um gerenciamento mais completo de sua saúde. Um deles, citado no consenso, aponta que o transtorno de ansiedade generalizada, presente em 5,5% das pessoas três meses após um episódio de infarto agudo do miocárdio, foi associado a um risco duas vezes maior de desfechos negativos em eventos cardiovasculares e mortalidade por todas as causas em um período de dez anos anos.
“O bem-estar subjetivo e as características relacionadas têm sido defendidos como estados protetores contra a mortalidade e morbidade prematuras, com foco principal nas condições de doenças cardiovasculares”, diz o documento.
*A repórter viajou a convite da Novo Nordisk