Em Caracas, por volta das 2 da madrugada, quatro horas antes do amanhecer, o céu da capital venezuelana se iluminou neste sábado, 3, com cerca de uma dezena de bombardeios, que despertaram toda a cidade. A princípio, os habitantes não entenderam que se tratava de uma operação militar americana com objetivo de “capturar” Nicolás Maduro. Só ouviam aviões sobrevoando os céus e uma detonação atrás da outra.
O aposentado José Moreno, 67 anos, pensou inicialmente que se tratava de fogos de artifício remanescentes das comemorações de Ano Novo, mas estrondos tão fortes e tão sucessivos o fizeram pensar que o tão desejado estava, finalmente, acontecendo: a queda do governo ou, no mínimo, a saída do ditador — o que, horas depois, foi confirmado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Diante da continuidade das explosões, e por meio das redes sociais e de amigos próximos ao Forte Tiuna (um dos alvos), entendi que se tratava de outra coisa mais importante”, contou ele à reportagem de VEJA, que foi às ruas de Caracas para decifrar o que aflorou entre os venezuelanos após o choque inicial da invasão que interrompeu 12 anos de governo Maduro.
Justamente perto do forte militar de Tiuna vive Lisbeth Torres. Ela, o marido e a filha acordaram no escuro total com a primeira detonação, que além disso deixou sua casa sem serviço de energia elétrica.
“Eu não sabia o que estava acontecendo, foi assustador. Mas quando me aproximei da janela e ouvi aviões e mais explosões, entendi que algo grande estava ocorrendo”, disse Lisbeth.
Ela relatou que conseguiu, da casa de um vizinho, ver os incêndios no Forte Tiuna. Posicionada lá, acompanhou os bombardeios, que continuaram bem depois das 2h30 da manhã.
José e Lisbeth coincidem em uma coisa: apesar da incerteza, que anda de mãos dadas com uma sensação de insegurança, olham para o futuro com expectativa. Ambos esperam uma transição de governo pacífica, sem vítimas, que a democracia seja restabelecida na Venezuela e que seus entes queridos, entre os quase 8 milhões que migraram do país, voltem para casa.
A ver. Em coletiva de imprensa em sua residência na Flórida, o resort de luxo Mar-a-Lago, Trump afirmou neste sábado que os Estados Unidos “governarão” a Venezuela por tempo indeterminado, sem deixar claro como isso será feito, sob qual autoridade ou com que tipo de acordos.
“Não queremos que outra pessoa assuma o poder e continuemos na mesma situação que tivemos nos últimos anos. Portanto, vamos governar o país. Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e justa”, disse Trump, sem dar mais detalhes ou estabelecer um prazo para a duração dessa transição de poder.
Mais cedo, a líder da oposição venezuelana María Corina Machado, Nobel da Paz de 2025, defendeu que seu colega, Edmundo González Urrutia, “deve assumir de imediato seu mandato constitucional e ser reconhecido como comandante chefe das Forças Armadas Nacionais por todos os oficiais e soldados”. Ela foi barrada de concorrer, mas usou sua sua capacidade de mobilizar milhões de venezuelanos, incluindo a diáspora, para apoiar o diplomata de 76 anos, reconhecido internacionalmente como líder legítimo do país. O regime declarou a vitória de Maduro, apesar das evidências contrárias e das amplas acusações de fraude.