O pequeno país Eslováquia, com cerca de 5,4 milhões de habitantes, se tornou o lugar onde a indústria automotiva europeia decidiu se concentrar. encravada no coração da Europa Central, entre Alemanha, Áustria, República Tcheca, Hungria e Polônia, o país produz próximo de 1 milhão de veículos por ano. O resultado é um título improvável, mas incontestável: nenhum outro país fabrica tantos carros por habitante no mundo.
Nos arredores de Žilina, no norte do país, a fábrica da Kia opera como um relógio industrial, abastecendo sobretudo mercados da Europa Ocidental, com o Reino Unido como principal destino. A mesma lógica se repete em Bratislava, capital às margens do Danúbio, onde a Volkswagen monta modelos para diferentes marcas do grupo. A Stellantis completa o mosaico industrial, enquanto a chegada da Volvo, prevista para 2027, reforça a aposta do país como plataforma europeia para veículos elétricos.
Essa concentração ganhou força após a Revolução de Veludo, em 1989, e a dissolução da Tchecoslováquia, a jovem economia de mercado eslovaca precisava de âncoras externas capazes de acelerar crescimento, exportações e transferência de tecnologia. As montadoras ocidentais encontraram ali uma combinação rara: salários muito baixos – cerca de um quinto dos alemães no início dos anos 1990 -, mão de obra treinada herdada da tradição industrial do Leste Europeu, estabilidade política, adesão posterior à União Europeia e uma localização logística quase imbatível. Da Eslováquia, caminhões alcançam em poucas horas a Alemanha, a Itália ou a França. Em um setor de margens estreitas, volumes elevados e produção “just in time”, estar perto do cliente final vale quase tanto quanto inovar.
A economia nacional reflete essa especialização extrema. O setor automotivo responde hoje por mais de 40% das exportações, cerca de 13% do PIB e sustenta, direta ou indiretamente, algo em torno de 250 mil empregos, um número expressivo para um país desse tamanho. A matriz energética ajuda: a forte presença de hidrelétricas e usinas nucleares reduz a pegada de carbono da produção, um ativo cada vez mais valioso em um continente obcecado por metas climáticas e critérios ambientais para subsídios. O Estado nunca foi um espectador passivo. Incentivos fiscais, subsídios à formação profissional e investimentos em infraestrutura foram tratados como política industrial explícita.
O problema é que o contexto mudou. Bruxelas planeja banir a venda de carros a combustão a partir de 2035. Veículos elétricos chineses avançam sobre o mercado europeu com preços agressivos, enquanto Estados Unidos e China subsidiam pesadamente suas cadeias industriais. Para um país pouco diversificado e profundamente dependente do automóvel, o risco é evidente. O dilema eslovaco, portanto, não é produzir mais carros — nisso ela já é campeã —, mas decidir se continuará sendo apenas a linha de montagem da Europa ou se conseguirá capturar uma fatia maior do valor na próxima era automotiva.