Todos os anos, hospitais da província de Yunnan, no sudoeste da China, recebem pacientes com um sintoma incomum. Eles afirmam ver pequenas figuras humanas caminhando pelo chão, subindo pelas paredes, atravessando portas e interagindo com objetos do ambiente. Em muitos casos, os relatos são tão semelhantes que parecem repetir o mesmo roteiro.
A causa é um cogumelo bastante conhecido na região, vendido em feiras e servido em restaurantes durante a temporada de colheita, entre junho e agosto. Seu nome científico é Lanmaoa asiatica. Apesar de ser considerado saboroso e fazer parte da culinária local, ele precisa ser cozido por tempo suficiente. Caso contrário, pode provocar um fenômeno raro chamado de “alucinação lilliputiana”, termo usado na psiquiatria para descrever a visão de pessoas, animais ou seres fantásticos em tamanho minúsculo, como os habitantes da ilha fictícia de Lilliput, em As viagens de Gulliver.
O que torna essas visões tão peculiares?
O mais intrigante para os pesquisadores não é apenas o fato de o cogumelo provocar alucinações, mas a extrema repetição do tipo de visão descrita por pessoas de culturas diferentes. Na China, pacientes relatam ver “xiao ren ren”, ou “pessoinhas”. Nas Filipinas, comunidades indígenas falam nos “ansisit”, figuras semelhantes. Registros históricos na Papua-Nova Guiné, ainda na década de 1930, mencionam um fenômeno parecido após o consumo de um cogumelo local.
Em Yunnan, levantamentos hospitalares indicam que cerca de 96% dos pacientes afetados descrevem visões praticamente idênticas. Dezenas de pequenas figuras humanas marchando, pulando ou se movendo pelo ambiente real. Alguns relatam que elas aparecem sobre a mesa, nas roupas ou até dentro do prato de comida.
Essa uniformidade chama a atenção porque, em geral, substâncias alucinógenas conhecidas produzem experiências muito diferentes de pessoa para pessoa.
Por que esse cogumelo intriga tanto os cientistas?
Apesar dos efeitos claros, análises químicas realizadas por pesquisadores do Museu de História Natural de Utah não identificaram no cogumelo nenhum dos compostos psicoativos já conhecidos, como a psilocibina, presente nos chamados “cogumelos mágicos”. Isso indica que a espécie pode conter uma substância ainda desconhecida da ciência.
Curiosamente, esse fungo pertence a um grupo mais próximo dos cogumelos comestíveis do tipo porcini do que das espécies tradicionalmente associadas a efeitos psicodélicos.
Em laboratório, extratos do cogumelo aplicados em camundongos provocaram mudanças comportamentais compatíveis com os relatos humanos. Um período inicial de agitação seguido por longos intervalos de apatia.