Em seu retorno ao Palácio do Planalto, Lula pretendia transformar a política internacional em um dos carros-chefes do governo. Dizendo que o país havia ficado isolado na era de Jair Bolsonaro, prometia “recolocar o Brasil no mundo”. Em três anos de mandato, no entanto, o que se viu foi muita ambição e poucos avanços concretos. A COP30, por exemplo, uma ótima oportunidade para ocupar o palco global, acabou marcada pelo esvaziamento, fora o fracasso nas negociações mais relevantes e a organização precária. Desafios do presente seguem à mesa, sem solução, como a novela do acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Se não bastasse, um grande fantasma do passado voltou a rondar o presidente: o das relações dele e do PT com o regime ditatorial venezuelano.
O ataque americano que apeou Nicolás Maduro do poder trouxe o assunto à tona de novo. Em uma nota cuidadosa, Lula criticou a ação, mas sem citar o venezuelano e Donald Trump. O equilíbrio no fio da navalha se justifica. No caso do americano, o presidente não quer arruinar o esforço realizado para reverter o tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, justamente o grande feito obtido pelo atual governo na área diplomática. A omissão em relação a Maduro ocorreu por motivo distinto. Ela tem a ver com o constrangimento de quem já estendeu o tapete vermelho a esse ditador e disse que a Venezuela tem democracia “até em excesso”. Na última eleição do país, fraudada pelo mandatário, o Palácio do Planalto enviou representantes para a posse, emprestando legitimidade à farsa, em evento que ainda contou com a presença festiva do MST e de outros grupos de esquerda. Em um primeiro momento, Lula declarou que não via nada de anormal no pleito. Depois, diante da crescente indignação internacional, optou por se afastar gradativamente do companheiro.
Não por acaso, a situação da Venezuela virou tema do debate político brasileiro no ano eleitoral, com a oposição trazendo de volta fatos relativos ao período de alinhamento de Lula com essa ditadura. Governos petistas emprestaram dinheiro ao país vizinho (a dívida hoje é estimada na casa de bilhões de reais), manobraram o BNDES para ajudar construtoras a ganharem contratos por lá (parte desses negócios entrou na mira da Lava-Jato) e até indicaram marqueteiros para uma das campanhas eleitorais do chavismo. Para se contrapor, o Palácio do Planalto bateu novamente o bumbo em defesa da soberania nacional contra a diplomacia do porrete de Trump, que escancarou de vez a política de aumentar a todo custo a influência americana na América Latina e deixou clara também a intenção de usar de força para remover eventuais obstáculos comerciais. Todos esses temas fazem parte do pacote de reportagens especiais desta edição.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977