O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interpretou as dancinhas e declarações públicas do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, como uma demonstração de deboche e indiferença, dando uma espécie de empurrãozinho para a operação dos EUA em Caracas, disseram fontes familiarizadas com o assunto ao jornal americano The New York Times no domingo 4. Na véspera, Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram levados presos e responderão a acusações de “narcoterrorismo” em um tribunal em Nova York.
Em meio à escalada das tensões com a Casa Branca, o líder chavista foi visto dançando e cantando em comícios na Venezuela. Em um dos episódios, soltou a voz na canção Don’t Worry, Be Happy (“Não se preocupe, seja feliz”, em tradução livre), de Bobby McFerrin. Na mesma ocasião, ordenou que a população se preparasse para “quebrar os dentes” dos Estados Unidos. Antes disso, em novembro, Maduro cantou o hino pacifista Imagine, de John Lennon, e apelou para “paz e diálogo”.
Outro incidente, que ocorreu durante a inauguração da Escola Internacional de Liderança Feminina em dezembro, também teria irritado o governo americano. Maduro dançou e fez gestos de socos no ar — assim como costuma fazer o presidente dos EUA, Donald Trump — ao som de uma música eletrônica remixada de vários dos seus discursos, que pediam “não à guerra, sim à paz”. Tudo foi interpretado como deboche por Washington, que interpretou que o venezuelano achava que as ameaças eram blefes.
Profundamente incomodado, o governo Trump “decidiu cumprir suas ameaças militares”, de acordo com o NYT. A intervenção foi levada a cabo no último sábado 3, quando Maduro e Cilia foram arrastados do quarto em que estavam por militares americanos durante a madrugada, informou a emissora americana CNN.
Em entrevista à emissora americana Fox News, Trump disse que assistiu ao vivo à captura, transmitida por agentes que participaram da missão. Já em Nova York, Maduro e Cilia se declaram inocentes de todas as acusações na segunda-feira 5. No tribunal, o presidente deposto afirmou: “Sou inocente. Não sou culpado. Sou um homem decente”. Os dois estão presos no Brooklyn.
+ De Colômbia a Cuba: quais países Trump disse estarem na mira após queda de Maduro
Quais são as acusações?
Em um novo indiciamento divulgado no sábado, os promotores de Manhattan alegam que Maduro supervisionou pessoalmente uma rede de tráfico de cocaína patrocinada pelo Estado, que tinha parcerias com alguns dos grupos narcotraficantes mais violentos e prolíficos do mundo, incluindo os cartéis mexicanos de Sinaloa e Los Zetas, o grupo paramilitar colombiano FARC e a gangue venezuelana Tren de Aragua.
A acusação contra Maduro na Corte do Distrito Sul de Nova York coloca como réus, além do ditador deposto e sua esposa, o filho do líder venezuelano, Nicolás Maduro Guerra, o ministro do Interior, Diosdado Cabello, e Hector Guerrero Flores, conhecido no Niño Guerrero e líder do Tren de Arágua.
Segundo o documento, Maduro “se associou a seus cúmplices para usar sua autoridade obtida ilegalmente e as instituições que corroeu para transportar milhares de toneladas de cocaína para os Estados Unidos”. A peça de acusação relembra a controversa trajetória do ditador e imputa a ele, por exemplo, papel de ter movimentado carregamentos de cocaína sob proteção da polícia venezuelana quando era membro da Assembleia Nacional, ter fornecido passaportes diplomáticos a notórios traficantes de drogas e ter facilitado a cobertura diplomática para que criminosos mexicanos pudessem repatriar dinheiro do crime na Venezuela.
“Maduro Flores permite que a corrupção alimentada pela cocaína floresça para seu próprio benefício, para o benefício dos membros de seu regime governante e para o benefício de seus familiares”, disse o procurador dos Estados Unidos Jay Clayton.
O documento ganha relevo porque é esta denúncia criminal formal, conhecida no sistema americano como “indictment”, que autoriza acusações criminais graves e a expedição de mandados de prisão internacionais. Acusado de narcoterrostimo, o venezuelano passa a ser enquadrado como risco à segurança nacional dos Estados Unidos com base em uma lei americana criada após os ataques de 11 de setembro de 2001. É na mescla de direito penal, direito internacional e risco à segurança nacional que autoridades do governo norte-americano se fiam para julgar e condenar Maduro.