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Câncer de pulmão: tabagismo e poluição são ameaças paralelas à saúde

O Dia Nacional de Combate ao Fumo, lembrado em 29 de agosto, reforça o alerta de que não existe consumo seguro de tabaco. Cigarro tradicional, charuto, cachimbo ou narguilé: todos carregam riscos à saúde. O tabagismo é o responsável por até 85% dos casos de câncer de pulmão e continua sendo a maior ameaça evitável quando falamos dessa doença. O cigarro eletrônico, apesar de não conter fumaça de tabaco, produz substâncias carcinogênicas e já demonstrou poder causar câncer de pulmão em modelos animais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o cigarro mata mais de 7 milhões de pessoas por ano em todo o planeta. Desse total, cerca de 1,6 milhão nunca fumaram, mas perderam a vida por exposição passiva à fumaça. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer
(INCA) estima mais de 32 mil novos diagnósticos de câncer de pulmão em 2025, com cerca de 16 mil mortes e, apesar de ser o terceiro tumor mais incidente, é a primeira causa de morte por câncer. Trata-se, portanto, de um dos tumores mais letais, responsável por 1,8 milhão de óbitos anuais no mundo.

Embora o tabaco seja, de longe, o maior vilão, há uma realidade crescente que merece atenção: o câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram. Esse grupo representa de 15% a 25% de todos os indivíduos diagnosticados com câncer de pulmão no mundo, segundo estudo recente publicado na revista Nature. Seguindo essa estimativa, a projeção é que no Brasil cerca de 8 mil pessoas não fumantes receberão o diagnóstico de câncer de pulmão em 2025. Esse perfil epidemiológico diferente exige novas estratégias de prevenção e conscientização.

Entre os fatores associados à doença em não fumantes estão a predisposição genética, histórico familiar, doenças pulmonares prévias e exposição ocupacional a agentes cancerígenos. Mas a poluição do ar tem se mostrado cada vez mais determinante. A Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC), ligada à OMS, estima que 195 mil casos anuais de câncer de pulmão sejam atribuíveis à poluição atmosférica por partículas finas (PM2.5).

Essas partículas, liberadas principalmente por veículos, indústrias e usinas de energia, penetram profundamente nos pulmões e desencadeiam mutações genéticas que comprometem a integridade celular e favorecem o desenvolvimento de tumores. Há evidências, inclusive, de aumento do risco entre jovens e mulheres nunca fumantes, com destaque para o adenocarcinoma, subtipo mais prevalente nesses pacientes.

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No Brasil, a situação é agravada pelas condições urbanas e ocupacionais. Queima de lenha ou carvão dentro dos domicílios, fumaça em ambientes de trabalho e exposição a solventes ou amianto aumentam o risco de câncer de pulmão. A OMS reforça que cerca de 80% dos casos de câncer estão, de alguma forma, relacionados a fatores ambientais.

A realidade mostra, portanto, que a prevenção do câncer de pulmão não se limita ao abandono do tabagismo, mas à defesa de um ar mais limpo e ambientes de trabalho mais seguros.

Outro desafio é o diagnóstico precoce. Os sintomas do câncer de pulmão muitas vezes se confundem com os de doenças respiratórias comuns, como bronquite e pneumonia, o que atrasa o início do tratamento. Tosse persistente, dor no peito, falta de ar, rouquidão e infecções pulmonares de repetição não devem ser negligenciados, especialmente em fumantes ou ex-fumantes, mas também em pessoas que nunca fumaram.

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Isso não significa minimizar o papel do tabagismo. Ele continua sendo o mais importante fator de risco prevenível. O cigarro não é apenas um hábito individual, mas uma epidemia social com consequências devastadoras. Além de adoecer, sobrecarrega sistemas de saúde, sobretudo em países de baixa e média renda, onde vivem 80% dos fumantes do mundo. O impacto econômico também é expressivo. Os gastos públicos e privados com doenças relacionadas ao tabaco desviam recursos que poderiam ser destinados à prevenção, educação e inovação em saúde.

Se faz necessário avançar na conscientização contínua de que nenhuma forma de fumar é segura, incluindo fumar dispositivos eletrônicos, que vêm seduzindo jovens com a falsa promessa de menor risco. Paralelamente, vale alertar a sociedade sobre a poluição do ar, fator de risco invisível, silencioso, mas cada vez mais impactante na saúde respiratória.

Apoiar políticas públicas que estimulem energia limpa, transporte sustentável e ambientes de trabalho livres de agentes cancerígenos é também uma forma de reduzir a incidência de câncer de pulmão.

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*Vladmir Cordeiro de Lima é oncologista clínico, presidente do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT)

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