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Cadê a imaginação? Por que nova coleção de Lego irrita os pedagogos

Tudo, mas tudo mesmo, pode ser feito de Lego: a Mona Lisa, a Torre Eiffel, a Millennium Falcon. O jogo de montar nasceu em 1932 com peças de madeira. Em 1958, deu um salto ao começar a ser fabricado com encaixes de plástico — e então o mundo nunca mais seria o mesmo. Em 2024, o faturamento da empresa da Dinamarca chegou a 10,8 bilhões de dólares — os valores de 2025 ainda não foram fechados, mas estima-se patamar semelhante, instalando a companhia familiar no topo da lista dos maiores fabricantes de brinquedos do planeta. O Lego, enfim — dada a mágica da simplicidade, como quem inventou a roda — faz parte da cultura lúdica de nosso tempo. O nome brotou da expressão leg godt (brincar bem, em dinamarquês), e rapidamente virou sinônimo do que é até mesmo para um bebê que começa a balbuciar as primeiras palavras — ou para um grandalhão bélico como Donald Trump. Por falar nele, tem circulado na internet, nos últimos dias, um meme em que as fronteiras da Groenlândia, território na mira do americano, são protegidas delicadamente por um muro… um muro de Lego. E quem há de vencê-lo?

Não há, enfim, quem desconheça um Lego, ainda que não possa comprá-lo. É marca imune a críticas — mesmo que, nos últimos anos, os profissionais da grife tenham tido de quebrar a cabeça para desenvolver material plástico que seja mais rapidamente biodegradável e que não suje o meio ambiente, como mandam os humores de hoje. Na semana passada, contudo, talvez pela primeira vez em celebrada história, a Lego levou tijolada. Explica-se, como quem monta alguma coisa: na CES, o maior evento de tecnologia do mundo, realizado em Los Angeles, os herdeiros de Ole Kirk Christiansen (1891-1958), o fundador, divulgaram com estardalhaço uma nova linha da diversão: a Smart Play, com pecinhas equipadas de sensores de movimentos e acelerômetros, luzes e sons. Os chips identificarão a proximidade de fendas e pinos irmãos, fazendo os blocos se aproximarem com a certeza absoluta da inteligência artificial.

HISTÓRIA - Christiansen: a ideia de fabricar com plástico, a partir de 1958
HISTÓRIA - Christiansen: a ideia de fabricar com plástico, a partir de 1958Alexis DUCLOS/Gamma-Rapho/Getty Images

É espetacular, e não por acaso o lançamento nas lojas acontecerá em março, nos Estados Unidos, de mãos dadas com personagens da franquia Star Wars, ora ancorada em Luke Skywalker, ora em Darth Vader. Será possível, por exemplo, reviver com animada interatividade os duelos no salão do imperador Palpatine e o desfile ao som da Marcha Imperial. Aplausos para o que a diretora de produto e marketing da Lego, Julia Goldin, definiu como “um próximo capítulo emocionante”.

Está certíssimo, em louvável passo tecnológico, não fosse um problema que os amantes da brincadeira e os pedagogos enxergam como tiro no pé — ou, dito de outro modo, um desvio problemático, um obstáculo para o segredo de todo Lego, alimento infinito para a criatividade de quem brinca, entre acertos e erros, em permanente quebra-cabeça. O exagerado uso dos recursos de ponta, que a primeira vista soam empolgantes, pode tirar o jogo de seu curso tradicional. Os truques, digamos assim, não representariam um bloqueio para a imaginação?

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GALÁXIA - A linha inspirada em Star Wars: o nome do jogo é interatividade
GALÁXIA – A linha inspirada em Star Wars: o nome do jogo é interatividadeDavid Becker/Getty Images

Não se trata de remar contra a maré, de má vontade ou apego ao passado — mas o Lego do futuro força indagações relevantes. “O faz de conta das crianças é exercício decisivo para o desenvolvimento das emoções, e o Smart Play parece atrapalhar esse bem-vindo processo lúdico natural”, disse a VEJA Ashwin Verghese, diretor de comunicações da ONG americana Fairplay, dedicada a zelar pela arte do brincar. Para Andrew Manches, professor de tecnologia na Universidade de Edimburgo, a beleza do Lego reside na “liberdade de recriar e adaptar blocos simples em infinitas histórias”. Há um problema de posicionamento, sim, mas nada que fira uma das máximas de Godtfred Kirk Christiansen, o filho do fundador, que pôs a engrenagem para voar: “Nossa ideia foi criar um brinquedo para a vida toda, impulso e alegria para a criação, que é a força motriz de todo ser humano”. O tempo dirá se o banho de tecnologia fará mal ao Lego, e, ainda que deixe cicatrizes, a estatística ilumina o tamanho da montanha difícil de ser demolida: são 100 milhões de peças por dia, o equivalente a mais de 36 bilhões por ano. É colosso analógico firme demais para ruir.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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