Toda virada de ano carrega um simbolismo poderoso para os brasileiros. Não se trata apenas da troca do calendário, mas de um momento de reorganização emocional, revisão de expectativas e tentativa de retomada do controle da própria vida. Os dados da pesquisa do Instituto Locomotiva, em parceria com a QuestionPro, revelam que o brasileiro segue otimista — ainda que esse otimismo apresente diferenças, limites e contradições.
Cerca de 83% dos brasileiros acreditam que 2026 será melhor do que 2025. São 135 milhões de pessoas que projetam melhora para o próximo ano, número superior ao registrado no período anterior. Em 2024, 79% dos brasileiros avaliavam que 2025 seria melhor. Mais de 80% das pessoas acreditam que sua vida pessoal vai melhorar em 2026. As mulheres e os jovens lideram esse sentimento, apostando em avanços na vida financeira, na saúde, no trabalho, na família e até na aparência física.
Ao observar o recorte político, o levantamento mostra que pessoas que se identificam com posições de esquerda demonstram expectativas mais positivas em relação à economia, aos serviços públicos e à atuação do governo. Entre os que se dizem de direita, o olhar é diferente, especialmente quando o assunto é o futuro do país. Essa distinção evidencia como o posicionamento político influencia diretamente a forma como os brasileiros projetam o futuro do país. O alinhamento político afeta o grau de otimismo às demandas sociais. Esse recorte ajuda a compreender que as expectativas não se constroem de forma racional, sendo fortemente influenciadas por percepções subjetivas.
Para o ano que se inicia, mais da metade da população pretende fazer alguma promessa ou resolução, movimento que combina pragmatismo e autocuidado. A saúde lidera com folga as prioridades. Para muitos dos entrevistados, mudar hábitos e cuidar do corpo é a principal meta. O desejo de consumo aparece em segundo plano, seguido pela intenção de dedicar mais tempo à família e investir em estudos ou cursos. Planos como abrir um negócio, mudar de emprego ou iniciar um relacionamento também aparecem, mas com menor peso.
A preocupação financeira atravessa todas as faixas de renda. Nove em cada dez brasileiros afirmam que pretendem guardar dinheiro ou fazer poupança em 2026, índice elevado tanto entre os mais ricos quanto entre os mais pobres. O dado sugere menos espaço para impulsos e mais foco em controle, planejamento e segurança. Melhorar a aparência, estudar, mudar de trabalho ou de casa são projetos que aparecem com frequência, assim como decisões de mudança de alimentação e atividade física, com destaque entre os mais jovens.
O otimismo cresce quando o olhar se volta para a vida pessoal. Muitos brasileiros acreditam que sua situação individual vai melhorar em 2026, percepção mais forte entre mulheres e jovens. A expectativa positiva se espalha por diferentes dimensões, como finanças, saúde, vida familiar e carreira. O contraste surge quando a avaliação recai sobre o país.
Um dado muito simbólico da pesquisa é justamente esse descompasso. O brasileiro confia menos no país como projeto coletivo, mas aposta fortemente na própria capacidade de mudança. Menos da metade acredita em melhora do Brasil no próximo ano, enquanto uma parcela significativa prevê estagnação ou piora.
Essa diferença entre esperança individual e ceticismo coletivo ajuda a explicar o protagonismo atribuído ao esforço pessoal. Mais da metade dos brasileiros se vê como o principal agente da própria transformação. O protagonismo está no indivíduo, na família, na fé e nas escolhas do dia a dia, enquanto o poder público ocupa papel secundário.
No fim das contas, o Brasil que surge desses dados não é um país ingênuo nem totalmente descrente. É um país pragmático que aprendeu a reduzir expectativas coletivas, mas que não abriu mão de melhorar o próprio caminho. Um país que aposta menos em grandes promessas e mais em pequenos avanços possíveis.
Talvez, esse seja o maior sinal de maturidade social que conseguimos construir nos últimos anos. O otimismo não desapareceu, ele apenas mudou de lugar.