Um ataque aéreo de Israel em Gaza no sábado matou o principal porta-voz da ala militar do grupo militante palestino Hamas, Hudayfa Samir Abdallah al-Kahlout, conhecido pelo codinome Abu Obeida. A informação foi confirmada neste domingo, 31, pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Obeida, com o rosto sempre oculto atrás de um lenço vermelho, era a voz que anunciava operações e declarações do Hamas. Ele estava dentro de um apartamento na Cidade de Gaza, maior aglomerado urbano no enclave.
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“Atacamos o porta-voz do Hamas, o porta-voz desta organização criminosa e assassina, Abu Obeida. Espero que ele não esteja mais conosco, mas notei que não há ninguém do lado do Hamas para esclarecer este assunto”, disse Netanyahu, segundo um comunicado de uma reunião do governo.
Em paralelo, ataques israelenses mataram ao menos outras 17 pessoas na Cidade de Gaza no sábado, segundo grupos médicos locais. Na sexta-feira, as Forças de Defesa de Israel declararam a área como uma “zona de combate perigosa“, uma ação que encerra todas as “pausas táticas” que permitiam a entrega, ainda que limitada, de alimentos aos habitantes locais, pouco depois do IPC, painel ligado às Nações Unidas, declarar oficialmente estado de fome no território.
Fome e deslocamento em massa
Aviões e tanques têm bombardeado partes da Cidade de Gaza na última semana, e veículos blindados israelenses foram mobilizados para seus arredores.
A cidade virou uma espécie de campo de refugiados onde vivem cerca de 1 milhão de palestinos. A nova ofensiva deve deslocar ainda mais pessoas, que já começaram a fugir da região. Uma declaração conjunta de várias organizações das Nações Unidas, incluindo a Unicef e o Programa Mundial de Alimentos (PMA), afirmou que a expansão da guerra “teria consequências ainda mais devastadoras para os civis onde as condições de fome já existem”.
“Muitas pessoas – especialmente crianças doentes e desnutridas, idosos e pessoas com deficiência – podem não conseguir deixar a região”, afirmou o texto.
A classificação de fome do IPC afirmou que mais de meio milhão de pessoas na Faixa de Gaza estão enfrentando condições “catastróficas” caracterizadas por “fome, miséria e morte”. Mais de uma em cada três pessoas (39%) indicou passar dias sem comer, e pais frequentemente pulam refeições para alimentar seus filhos, segundo o IPC. A declaração acontece quando três limites críticos – privação extrema de alimentos, desnutrição aguda e mortes relacionadas à fome – são ultrapassados.
Negociações travadas
No início desta semana, um porta-voz do Exército israelense afirmou que a evacuação da Cidade de Gaza é “inevitável”. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou o ataque à Cidade de Gaza ocorrerá em paralelo às negociações para um cessar-fogo, embora o processo diplomático esteja paralisado. Tel Aviv não respondeu a uma proposta de trégua que o Hamas aceitou, que inclui uma pausa de 60 dias nos combates e a libertação parcial de dez reféns vivos e 18 corpos.
O premiê argumentou que o ataque é a melhor maneira de enfraquecer o Hamas e pressionar o grupo a devolver os reféns. Muitas famílias dos sequestrados, porém, discordam e temem que isso coloque as vidas dos seus parentes em risco, tendo saído às ruas nos últimos dias para exigir a assinatura de um acordo e o fim da guerra.
Cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 foram feitas reféns nos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, no sul de Israel. A maioria dos cativos foi libertada durante tréguas anteriores. Cerca de 50 permanecem em Gaza, e autoridades israelenses acreditam que cerca de 20 ainda estejam vivos.
Netanyahu foi acusado de prolongar as negociações de cessar-fogo – e bloquear seu progresso – para garantir sua própria sobrevivência política, mantendo a guerra em andamento. O líder israelense está sendo julgado em Israel por suposta corrupção e é procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, por acusações de crimes de guerra em Gaza. Ele nega todas as alegaões contra ele.