Maior ilha não continental do mundo, a Groenlândia raramente chama a atenção de produtores de cinema e de TV. Tanto que, em 2013, veio do então Ministro do Clima, Energia e Construção da Dinamarca, Martin Lidegaard, a ideia que se tornaria a quarta temporada da série da Netflix Borgen – O Reino, o Poder e a Glória, que foi ao ar quase dez anos depois, em 2022. Ativista ambiental, Lidegaard sugeriu ao criador da série, Adam Price, um cenário de intrigas políticas em que o pivô do problema seria a descoberta de petróleo na Groenlândia. De olho na exploração econômica do território semiautônomo ligado à Dinamarca, país-membro da OTAN, nações como Rússia, China e Estados Unidos dariam início a planos de invasão – que iriam além do interesse apenas no petróleo.
Quando a trama estava em construção, a inclinação pela ilha estava restrita à ficção. “Se na época eu tivesse sugerido uma história em que o presidente americano quisesse comprar a Groenlândia, com certeza me diriam para pensar em algo mais verossímil”, disse Lidegaard à época do lançamento da série, quando Donald Trump, no fim de seu primeiro mandato, fez a proposta indecente à Dinamarca. Agora, a realidade superou o faz de conta.
Sem dar spoilers, a série primorosa mostra os vários interesses escusos de grandes nações em regiões estrategicamente posicionadas no globo, além dos perigos da falta de respeito à soberania de outras nações menores e da exploração desenfreada de territórios preservados. Hoje, pesquisadores sugerem que o potencial econômico da Groenlândia é imenso, com reservas não só de petróleo e gás natural, como também de pedras preciosas e de lítio, metal essencial para a criação de baterias de aparelhos tecnológicos. Tanto na série, quanto na vida real, levanta-se o alerta para cenários apocalípticos que essa exploração pode causar, sendo a principal delas um aceleramento das mudanças climáticas e a elevação dos oceanos – que pode tornar a própria Groenlândia inabitável. Uma trama com poucas chances de um final feliz.