Apenas 33% dos norte-americanos aprovam a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela que resultou na deposição e prisão de Nicolás Maduro. É o que mostra uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta segunda-feira, 5. O levantamento também expõe um sentimento de apreensão: 72% dos entrevistados afirmam temer que Washington se envolva de forma excessiva nos assuntos internos do país sul-americano.
A operação foi realizada antes do amanhecer de sábado, 3, quando tropas americanas desembarcaram em Caracas em uma ação relâmpago que terminou com Maduro sob custódia das autoridades dos Estados Unidos. Considerada uma das intervenções mais diretas de Washington na América Latina nas últimas décadas, a ofensiva provocou forte repercussão internacional e reacendeu o debate sobre os limites da atuação americana na região.
Transferido para Nova York, o ex-presidente venezuelano permanecerá detido até 17 de março, data marcada para uma nova audiência. A decisão foi anunciada nesta segunda-feira pelo juiz distrital Alvin K. Hellerstein, ao fim da primeira sessão do julgamento no Tribunal do Distrito Sul de Nova York. Maduro é acusado de “narcoterrorismo” e outros crimes ligados ao tráfico internacional de drogas. Diante do tribunal, declarou-se inocente.
O apoio à intervenção varia conforme a orientação política dos entrevistados. Entre eleitores republicanos, 65% disseram aprovar a ação militar, enquanto o índice cai para 11% entre democratas e 23% entre independentes. Os números escancaram a polarização em torno da política externa americana e reforçam a percepção de que, para uma parcela significativa do eleitorado, a ofensiva representa um risco de escalada militar e instabilidade regional.
Dentro do Partido Republicano, o levantamento revela apoio expressivo a uma política externa mais intervencionista na América Latina. Cerca de 43% dos republicanos concordam que os Estados Unidos deveriam exercer uma predominância nos assuntos do Hemisfério Ocidental, enquanto 19% discordam dessa visão. O restante afirmou não ter opinião formada ou preferiu não responder.
Esse posicionamento ganhou contornos mais concretos no fim de semana, quando o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos poderiam “governar” a Venezuela por um período indefinido e não descartou o envio de tropas terrestres. Trump também defendeu uma ampla reformulação da indústria petrolífera venezuelana e afirmou que Washington precisa ter “acesso total” aos grandes campos de petróleo do país, reforçando que a dimensão econômica está no centro da estratégia americana.
De acordo com a pesquisa, cerca de 60% dos republicanos disseram apoiar o envio de tropas americanas para a Venezuela — o dobro do índice registrado entre os entrevistados no conjunto da população, que ficou em torno de 30%. Entre os eleitores do partido, 59% também afirmaram apoiar que os Estados Unidos assumam o controle dos campos de petróleo venezuelanos.
Apesar do discurso agressivo, ainda não está claro como Trump pretende cumprir a promessa de “governar” a Venezuela. No domingo, o presidente indicou que o controle americano poderia ocorrer mais por meio da intimidação das lideranças locais do que pela administração direta do país. “Se eles não se comportarem, partiremos para um segundo ataque”, disse, sem detalhar quais seriam os próximos passos da estratégia.
Mesmo entre os republicanos, no entanto, há receios relevantes quanto às consequências da operação. Segundo o levantamento, 54% dos eleitores do partido disseram temer que os Estados Unidos acabem se envolvendo além do limite aceitável na Venezuela. A mesma proporção demonstrou preocupação com os custos financeiros da intervenção, enquanto 45% afirmaram não ver esse ponto como um problema. Já o risco humano aparece como um fator sensível: 64% dos republicanos disseram temer que a escalada do conflito coloque em perigo a vida de militares americanos no país sul-americano.
A pesquisa ouviu 1.248 adultos em todo o país, foi realizada online entre domingo e segunda-feira e tem margem de erro de cerca de três pontos percentuais. O levantamento mostrou ainda uma leve recuperação na popularidade do presidente Donald Trump: sua taxa de aprovação subiu para 42%, o maior patamar desde outubro, acima dos 39% registrados em dezembro.