Neste momento do ano, a maioria das pessoas está com a cabeça nos novos hábitos que quer construir. Eu, porém, gostaria de falar de um prazer cotidiano que não pretendo abandonar: assistir a boas produções na televisão. Tirar um tempo à noite para acompanhar uma série é um ritual que tenho com meu marido, Luiz. Nós dois somos cinéfilos, só que nem sempre podemos sair para ver um filme. Mas hoje as boas histórias estão a alguns cliques do controle remoto. E, quando não se dispõe de uma hora e meia ou duas, as tramas em capítulos dão a dose necessária. Todo mundo gosta de participar das conversas sobre os últimos lançamentos, nem que seja para compartilhar sua decepção. No entanto, muitas produções de alta qualidade acabam sendo esquecidas ou pouco comentadas, sobretudo no caso das minisséries, cujo enredo se encerra em uma só temporada. E às vezes são preteridas pelas que ganham novos episódios a cada estação. Os últimos anos foram fartos em narrativas breves assim, várias delas baseadas em casos reais. Dentro desse grupo, os farsantes geniais, capazes de seduzir meio mundo, pertencem a uma categoria à parte, que fascina a indústria cultural.
Em The Dropout (Disney+), conhecemos Elizabeth Holmes, estudante que abandona a prestigiosa Universidade Stanford para fundar uma startup que prometia revolucionar a área de saúde com exames capazes de altas predições com apenas uma gota de sangue. O que parecia digno de Nobel revelou-se um embuste. Outro “unicórnio” é abordado em WeCrashed (Apple TV), história da rede WeWork, pioneira dos escritórios compartilhados, que colapsou por causa dos hábitos duvidosos de seu fundador megalomaníaco, Adam Neumann. Por fim, nessa linha ainda, Inventando Anna (Netflix) traz uma golpista que convenceu a elite nova-iorquina de que era uma herdeira alemã. De verdadeiro, só o nome Anna — Sorokin, e não Delvey.
“Todo mundo gosta de participar das conversas, nem que seja para compartilhar sua decepção”
A Segunda Guerra é outro assunto que tradicionalmente rende grandes produções. O Homem do Castelo Alto (Prime Video) é uma ficção baseada em romance de Philip K. Dick, um rei das distopias, que nos faz tremer ao pensar o que teria acontecido ao mundo caso os Aliados tivessem perdido. Já Babylon Berlin fala dos anos 20, o período que antecedeu a ascensão de Hitler — talvez a nossa favorita (além do mais com uma trilha sonora ótima). Quem se interessa por temas atuais tem uma ótima trinca em Adolescência, Anatomia de um Escândalo e O Monstro em Mim (todas na Netflix). A primeira foi premiadíssima, mas as outras duas também são excelentes. Todas tratam de crimes escondidos por pessoas aparentemente comuns. E, para terminar, não poderia faltar uma recomendação ligada à culinária. Em Midnight Diner: Tokyo Stories, um chef japonês abre seu pequeno restaurante num inusitado horário, da meia-noite às sete. Madrugada adentro, os clientes se aproximam, falam de si e traçam conexões. Uma fábula em pílulas de vinte e poucos minutos, mostrando que o poder da comida não precisa de muito para se fazer sentir. Talvez seja isso que eu deseje para o novo ano: menos ansiedade por novidades e mais espaço para o que permanece. Boas histórias, como certos hábitos, não precisam de data para fazer sentido, apenas de tempo, atenção e um sofá compartilhado.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977