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A visão ácida sobre o capitalismo coreano no filme ‘A Única Saída’

Man-Su (Lee Byung-hun) é um homem realizado que vive na casa dos sonhos com a mulher que ama, tem dois filhos adoráveis e dois cachorros brincalhões. Ele faz questão de dizer isso à família durante um churrasco no quintal, ao grelhar as enguias que ganhou da empresa de produção de papel onde trabalha há 25 anos. Mal sabe o coitado que o presente de grego é um prenúncio para tempos de escassez: pouco depois, Man-su é demitido com diversos colegas em um corte em massa, quando a companhia da Coreia do Sul é adquirida por uma multinacional americana. A nova administração está disposta a tudo para reduzir custos — e, para obter isso, vai substituir boa parte da mão de obra humana por aparatos movidos pela inteligência artificial.

Assim começa o calvário do protagonista de A Única Saída (Eojjeolsuga Eobsda, Coreia do Sul, 2025), novo filme do diretor Park Chan-wook já em cartaz no país. Aos 62 anos, o cineasta que impactou o mundo com o aclamado drama de vingança Oldboy (2003) volta a mirar um drama social que expõe o que há de pior nas pessoas — e faz isso com um impressionante controle narrativo, imagens soberbas e humor macabro. Conforme o desemprego persiste, Man-su se desespera ao ver seu estilo de vida de classe média alta se esvair. Embora tenha a opção de se reinventar em outra atividade, ele só enxerga a única saída do título do filme: agora Man-su está disposto a eliminar, literalmente, os concorrentes com quem disputa os pouquíssimos cargos disponíveis em outras empresas que fazem parte do obsoleto setor de papel.

Baseado no livro O Corte, do autor americano Donald Westlake, publicado em 1997 e ambientado na Coreia do Sul, o filme traduz um mal-estar subjacente à vida social do país asiático, apesar da pujança de seu capitalismo: o desalento que atinge certa parcela da população com formação de alto nível, condenada ao desemprego ou a ocupações menores em razão da concorrência pelas boas vagas. Da série Round 6 ao premiado filme Parasita, essa questão que aflige os sul-coreanos embalou entretenimento de primeira — e demonstrou, não à toa, ter apelo universal. Para além da direção impecável, destaca-se no filme a atuação primorosa de Lee Byung-­hun. Versátil, nos últimos anos ele integrou o elenco do popular seriado Round 6 e fez a voz do vilão no fenômeno Guerreiras do K-Pop. Em A Única Saída, Lee vai da comédia de erros a uma violência desengonçada e propositalmente amadora. O preço das ações de Man-su é alto, mas ele está disposto a pagar para ver — custe o que custar.

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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