Depois do cessar-fogo selado há um mês na Faixa de Gaza, onde não havia dia sem bombardeios por parte de Israel após os ataques terroristas do Hamas em outubro de 2023, a tensão baixou, embora a toda hora apareçam evidências de violação do trato de parte a parte. Ainda que o percurso rumo à paz duradoura seja longo e incerto, a ajuda humanitária voltou a entrar no devastado enclave, e o Conselho de Segurança da ONU deu sinal verde para os próximos passos do plano que mira o futuro do estreito naco às margens do Mar Mediterrâneo. Mas, como nada parece apaziguar os ânimos nessas bandas do Oriente Médio, agora é na Cisjordânia, o outro território palestino logo ali, sob ocupação militar de Israel, que a violência escala a níveis nunca antes registrados até mesmo para os elevados padrões locais. Grupos de colonos judeus, que vivem em assentamentos ilegais aos olhos do direito internacional, vêm vandalizando plantações de oliveiras, maior fonte de sustento local, e invadindo cidades na base do quebra-quebra e da bala.
Segundo um termômetro da ONU que há duas décadas mede os níveis de violência nesse território de 3,3 milhões de habitantes, onde fica baseada a enfraquecida Autoridade Palestina, foram 264 ataques em outubro, um triste recorde. Pode intrigar o fato de a poeira ter relativamente (e bota relativamente nisso) assentado em Gaza e a temperatura estar subindo justamente neste momento na Cisjordânia. Mas os dois movimentos estão conectados. Ao assinar o cessar-fogo proposto pelos Estados Unidos, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu desagradou a ala da ultradireita religiosa que sustenta sua coalizão.

Deixar que o radicalismo dos colonos avance na Cisjordânia seria, portanto, um aceno a esses aliados que não querem saber do fim da guerra, muito menos das conversas em torno de dois Estados. “Setores da ultradireita que mantêm o governo de Netanyahu de pé estão insatisfeitos, e as operações sem qualquer freio oficial na Cisjordânia são uma espécie de concessão a eles”, avalia Mairav Zonszein, do think tank International Crisis Group. Só para lembrar, ministros da aliança do premiê despontaram como líderes de assentamentos na Cisjordânia, área tida como estratégica ao projeto de expansão territorial que eles não escondem cultivar.
O Exército israelense, o IDF, nega apoio à banda radical dos colonos e alega que ações violentas como as que tanto têm se visto são “iniciativas não autorizadas”. Uns dias atrás, o próprio Netanyahu lançou a responsabilidade pelos ataques no colo de “uma minoria que não representa a grande maioria na Cisjordânia, respeitadora da lei e leal ao Estado”. Também garantiu que vai combater e punir os agressores, promessa cercada de justificável ceticismo: segundo recente levantamento, apenas uma de cada vinte investigações sobre ataques de tal natureza se desdobra em acusações concretas. Em paralelo, de acordo com dados da ONU, crescem as operações encabeçadas pelas Forças Armadas israelenses que acabam em mortes. No último dia 15, dois adolescentes perderam a vida baleados em meio a uma delas, supervisionada pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, virulento líder colono de passado controverso. Incursões contra o que Israel classifica como redutos terroristas tornaram-se campanhas prolongadas que arrasam bairros inteiros e já provocaram o deslocamento de quase 40 000 palestinos desde janeiro.
Os colonos avançam há décadas sobre amplas zonas da Cisjordânia. E isso vem se exacerbando nos últimos tempos, com a construção de mais de 100 quilômetros de novas estradas, exclusivas para israelenses, e o início de um projeto para pôr de pé 4 000 casas para abrigá-los. Liderado por Bezalel Smotrich, o ultradireitista ministro das Finanças, o plano, batizado de E1, prevê abocanhar mais 18% do território que Israel ilegalmente ocupa desde 1967 e onde o número de israelenses só se multiplica — quintuplicou de 1990 para cá, chegando a 700 000. Os palestinos vivem ali sem direito à cidadania e na dependência do aval de Israel para se locomover.

Se o plano de Smotrich se concretizar tal qual arquitetado, eles ficarão espremidos em seis bolsões sem comunicação entre si, o que dissolve as já poucas esperanças de um Estado palestino. “Netanyahu permite que seus parceiros extremistas ditem as regras na Cisjordânia, apostando em uma tomada informal dos territórios, situação em que não se compromete e não irrita seu maior aliado, os Estados Unidos”, afirma o historiador Michel Gherman, da UFRJ. De fato, tudo o que o presidente Donald Trump não quer agora é mais uma contenda sem fim, o que sepultaria o avanço dos Acordos de Abraão, cujo objetivo é normalizar a relação entre Israel e Estados árabes, trazendo aos americanos bilionárias oportunidades.
Nos anos 1990, aquele quinhão de terra entre a Jordânia e Israel foi repartido em áreas classificadas como A, B e C, conforme previsto nos Acordos de Oslo. Havia regras bem definidas para cada uma, das quais os israelenses vêm se desviando com cada vez mais frequência e força militar. A área A, sobre a qual a Autoridade Palestina deveria ter controle total, passou a obedecer à mesma lógica da C, dominada por Israel. “A escalada contra a Cisjordânia faz parte de um projeto antigo, mas se encaixa bem na estratégia atual de Netanyahu de manter conflitos vivos para se perpetuar no poder”, avalia Thair Abu Ras, do Middle East Institute. No domingo 23, um ataque israelense contra Beirute eliminou o chefe militar da facção libanesa Hezbollah, elevando a fervura exato um ano após o cessar-fogo com o Líbano. E assim, de bomba em bomba, a tal da paz duradoura mais parece uma miragem no horizonte do explosivo Oriente Médio.
Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972