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A operação detetivesca que revelou ao mundo duas obras perdidas de Bach

Em 1992, o musicólogo alemão Peter Wollny, então aos 31 anos, encontrou duas misteriosas partituras para órgão na Biblioteca Real de Bruxelas, na Bélgica. Ele não sabia ao certo de onde vinha seu fascínio pelo material, nem imaginava quem poderia ter composto tais obras, mas ficou maravilhado pela caligrafia e impressionado com a antiguidade dos papéis: eram de cerca de 1700, achado incomum mesmo em se tratando de manuscritos em bibliotecas da Europa. Acometido pela curiosidade incansável de um arqueólogo musical, encomendou cópias daqueles documentos e as carregou consigo por 33 anos, reunindo pistas aqui e ali conforme o tempo passava. No dia 17 de novembro, pôde enfim testemunhar a grandeza que ali se escondia. Wollny assistiu à primeira apresentação das obras em 320 anos na Igreja de São Tomás, em Leipzig, já com a certeza de quem as havia criado: o maior compositor barroco da história, Johann Sebastian Bach (1685-1750).

A descoberta mudou a rotina do pesquisador. É sua maior vitória desde 1993, quando assumiu a direção do Bach-Archiv Leipzig, instituição voltada para a preservação do legado do gênio. O feito lhe rendeu honrarias do Ministério da Cultura alemão, que o qualificou como “um grande momento para o mundo da música”. A escolha do lugar do concerto, na mesma igreja onde Bach trabalhou por anos e foi sepultado, ampliou o simbolismo da façanha. Em entrevista a VEJA, ele admite estar surpreso com a repercussão: “Não é todo dia que um musicólogo como eu é procurado pela imprensa”.

ORGULHO - Wollny (ao centro) no concerto: peças de qualidade excepcional
ORGULHO - Wollny (ao centro) no concerto: peças de qualidade excepcionalJens Schlueter/BACH ARCHIVE/AFP

Para solucionar o mistério digno de Dan Brown, uma peça foi chave: em 2024, Wollny enfim identificou quem havia escrito a partitura. Não se tratava do próprio Bach, mas do primeiro jovem a quem ele deu aulas de órgão na cidade de Arnstad, Salomon Günther John, cuja caligrafia foi encontrada num documento judicial da mesma época e coincidia com as anotações sem autoria. No papel de pupilo, copiou o trabalho do mestre a fim de absorver aprendizados. Para além disso, as similaridades musicais estavam claras ao especialista: “As obras se encaixam perfeitamente na fase inicial de Bach, entre 1700 e 1710. Apresentam, por exemplo, influências exercidas nele pelo organista Georg Böhm (1661-1733), seu ídolo”, aponta.

As duas peças também demonstram técnicas utilizadas por Bach em outros trabalhos, mas incomuns no começo do século XVIII. A junção de ostinatos — padrões musicais repetitivos — e fugas — expediente em que diferentes vozes melódicas conversam entre si — ocorre tanto em uma das composições como em Passacaglia e Fuga em Dó Menor, escrita por Bach em algum ponto entre 1706 e 1713.

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Ambas as obras ressurgidas são do gênero barroco conhecido como chacona — uma em ré menor, outra em sol menor —, popularizado na Espanha a partir do século XVI e marcado pela variação de uma progressão harmônica que se repete. O primeiro músico a tocá-las após o anúncio da descoberta foi o holandês Ton Koopman, que assegurou ao jornal inglês The Guardian que são de qualidade excepcional e serão úteis para futuros estudantes de órgão, já que podem ser tocadas até em versões menores do instrumento.

320 ANOS DEPOIS - A Chacona em Ré Menor BWV 1178: autoria só foi confirmada após teste de caligrafia
320 ANOS DEPOIS - A<em> Chacona em Ré Menor BWV 1178</em>: autoria só foi confirmada após teste de caligrafiaRoyal Library of Belgium/AFP

Essa versatilidade é uma marca de Bach, compositor capaz de se adaptar a qualquer limitação formal desde a infância. Prodígio único, estudou toda a música europeia que o precedeu e se destacou ao dominar a matemática da teoria musical, a profundidade emocional do ofício e, especialmente, os contrapontos, nos quais múltiplas linhas independentes formam outras harmonias. Foi prolífico e criou mais de 1 000 trabalhos, que continuam a guiar músicos ao redor do globo. De tão significativo para a estética do período barroco, também o encerrou: historiadores consideram sua morte o ponto de transição para o clássico.

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Para além disso, Wollny argumenta a favor de Bach com sentimentalismo: “As músicas dele nunca envelhecem. Eu as ouvi por toda minha vida, mas sempre encontro algo novo. É diferente daquilo que se ouve na rádio e se cansa após uma semana. Tamanha beleza e longevidade são aspectos raríssimos hoje”. É incerto quanto do cânone de Bach ainda resta ser escavado, mas o estudioso espera que outras de suas contribuições inestimáveis estejam espalhadas pela Europa. “Talvez não sejam reveladas por mim, mas o que mais quero é ouvi-las”, diz. A descoberta reafirma aquilo que os ouvidos do mundo sabem há séculos: apreciar a música de Bach é uma experiência sublime — e inconfundível.

Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2025, edição nº 2972

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