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A onda turística que mudou o cenário de um paraíso da Bahia

Morro de São Paulo é uma vila da ilha de Tinharé. Localizada a cerca de 60 quilômetros ao sul de Salvador, capital da Bahia, ela é conhecida por suas belezas naturais e turismo. Na última década, a vila tem recebidos visitantes inusitados que acabaram por impactar na economia e no mercado imobiliário local. São os turistas israelenses, na maioria judeus, que transformaram o cotidiano do lugar.

O fluxo intenso desses visitantes foi impulsionado anos atrás pela gravação de uma série de televisão ambientada na região. O impacto da série que apresentou Morro de São Paulo ao público israelense acabou extrapolando o campo do entretenimento. Ao criar uma narrativa afetiva em torno do destino, a produção contribuiu para formar um imaginário coletivo que se materializou em investimentos concretos, adaptações urbanas e novas oportunidades no mercado imobiliário local. Hoje, o lugar colhe os frutos de um turismo segmentado que, além de movimentar a economia, redefiniu o uso e o valor dos imóveis, mostrando como cultura, mídia e comportamento do consumidor podem moldar de forma profunda um território.

A continua e crescente ida de israelenses para Morro de São Paulo estimulou a ampliação e a diversificação das opções de curta temporada, com imóveis sendo adaptados ou concebidos especificamente para atender às demandas culturais, religiosas e de consumo desse público formado, em sua maioria, por jovens que, após concluírem o ano de serviço militar no país, viajam pelo mundo, para, depois, iniciar sua vida de trabalho.

Ao longo do tempo, proprietários e investidores perceberam que não se tratava de um turismo ocasional, mas de um perfil recorrente, organizado e altamente conectado por redes de recomendação. Isso levou à valorização de imóveis voltados à locação por temporada, com atenção a detalhes que vão além da localização ou da vista. Espaços para refeições coletivas, cozinhas preparadas para cardápios específicos, áreas reservadas para momentos de oração e layouts mais flexíveis passaram a ser diferenciais competitivos, influenciando tanto reformas quanto novos projetos.

“Não era comum encontrarmos judeus religiosos na Bahia. Com a vinda recorrente dos turistas de Israel, tivemos que aprender sobre sua religião e costumes e fazer algumas adaptações para atrair e fidelizar a clientela. Um desses ajustes é a atenção ao período de shabat, que inicia ao pôr do sol da sexta-feira e demanda uma série de restrições, que impactam no cotidiano da pousada, mas que nos adaptamos para servir aos nossos hóspedes, como não cobrar dinheiro ou cartão de crédito deles nesse período e deixar as refeições prontas, já que seu preparo também é proibido até o fim do shabat”, conta Ricardo Santana, proprietário de uma pousada que costuma encher de jovens israelenses no verão.

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O comércio e os serviços também acompanharam esse movimento e acabaram reforçando o ciclo de valorização imobiliária. Restaurantes adaptaram cardápios, incluíram versões em hebraico e ajustaram o preparo dos pratos às restrições alimentares do público israelense, o que ampliou o tempo de permanência dos turistas e aumentou a demanda por hospedagens próximas a esses estabelecimentos. A instalação de uma sinagoga e a realização de cerimônias religiosas e celebrações, como casamentos, também contribuíram para consolidar a ilha como um destino que oferece infraestrutura compatível com estadias mais longas e planejadas.

Esse cenário fez com que Morro de São Paulo deixasse de ser visto apenas como um destino de passagem ou de lazer rápido, passando a atrair investidores interessados em imóveis com vocação clara para aluguel de curta duração. Casas e pousadas passaram a ser precificadas não apenas pelo metro quadrado, mas pelo potencial de renda associado a esse nicho turístico específico, que demonstra forte capacidade de consumo e alta taxa de retorno.

Dados da própria prefeitura indicam que, em determinados períodos, mais da metade dos turistas estrangeiros em Morro de São Paulo é formada por israelenses, o que reforça a estabilidade dessa demanda. Eventos culturais e festas de grande porte, inspirados em referências musicais populares em Israel, também ajudaram a criar uma agenda permanente, sustentando a ocupação imobiliária fora da alta temporada tradicional.

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