A Chevron será a empresa mais beneficiada de uma provável exploração americana do petróleo venezuelano, disseram analistas ouvidos por VEJA nesta segunda-feira, 5. O consenso é que o fato de a empresa já estar no país, e ter dialogo com o atual regime ditatorial, pode facilitar os caminhos para a exploração de novos poços de petróleo na maior reserva do mundo.
As estimativas sobre essa exploração surge em meio ao contexto da intervenção militar do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Venezuela. Trump capturou o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, e sinalizou que o país não terá eleições. O mesmo manteve o restante do regime no poder, após a vice de Maduro assumir o poder com toda a estrutura da ditadura local e afirmar que vai colaborar com os Estados Unidos. Diante desse cenário, o presidente americano decidiu focar no ouro negro. Em seu discurso após a operação, Trump repetiu a palavra petróleo 15 vezes.
“A nossa presença na Venezuela tem tudo a ver com o petróleo. Acho que nós teremos muita riqueza saindo daquele solo e essa riqueza vai ajudar os Estados Unidos na forma de reembolso pelos danos causados ao nosso país”, disse Trump. Ele comentou que petrolíferas americanas “vão entrar, investir bilhões de dólares, consertar a infraestrutura, que está em péssimo estado, e começar a gerar lucro para o país”.
Para Flávio Conde, analista da Levante Investimentos, a Chevron será a empresa mais beneficiada pelo fato de a mesma já estar instalada na Venezuela. “Atualmente, a companhia produz cerca de 250 mil de barris de petróleo por dia no país. Então, em uma abertura de mercado, a empresa já sai na frente diante das demais concorrentes da americanas”, diz Conde.
George Sales, professor de Mercado financeiro na FIPECAFI, lembra de outras empresas. A ExxonMobil tem histórico no país e reivindicações de US$ 2,6 bilhões por ativos expropriados. Ele diz que a empresa pode retornar para explorar reservas, beneficiando-se de uma abertura política.
O professor aponta também que a ConocoPhillips detém uma arbitragem de US$ 8,7 bilhões a US$ 11 bilhões por expropriações. “A empresa é vista como uma das principais beneficiárias para recuperação de dívidas e novos investimentos”, diz Sales. Ainda que ele aponte essas duas companhias, o especialista reconhece que a Chevron está muito a frente das demais, justamente por já estar na Venezuela e saber como negociar com a ditadura local.
Em meio a esse cenário, as ações das empresas desse segmento disparam na Bolsa americana. Por volta das 13h, as ações da Chevron disparavam 5,43%. A Exxon Mobil subia 2,43%. Já a Halliburton, empresa de infraestrutura de petróleo, disparava 8,88%. Outras empresas do segmento também avançavam, como Valero Energy que saltava 10,41%, Phillips 66 avançava 5,11% e Marathon Petroleum tinha alta de 2,12%.
No entanto, Pedro Moreira, sócio da ONE Investimentos diz que o mercado já estava atento a essas empresas. Desse modo, o ideal seria cautela para quem procura investir nesse momento. Isso porque a alta do dia pode ter zerado os ganhos de curto prazo. “O cuidado deve ser elevado, pois as empresas só sentiriam as mudanças financeiramente daqui há três anos, pois seriam necessários investimentos na Venezuela para produção retomar a patamares relevantes”, diz Moreira.
Preço do petróleo será impactado?
Ricardo França, analista da Ágora Investimentos, prevê pouco impacto para o preço do petróleo. Embora a Venezuela tenha a maior reserva de petróleo do mundo, o país é responsável apenas por 1% da produção mundial. O cenário é diferente da década de 1970, quando a Venezuela produzia cerca de 10% de todo o petróleo do mundo.
“Desse modo, acreditamos que o petróleo deve continuar na faixa atual dos 60 ou 63 dólares por barril ao fim de 2026”, diz França. “Para a Venezuela voltar a produzir em um nível que impacte o preço do petróleo, seria necessário muitos investimentos. Isso deve levar tempo, por isso, não prevemos mudanças no preço da commodity essa ano”, conclui.
Já a XP Investimentos diz que é improvável que a produção da Venezuela retorne aos níveis máximos históricos num futuro próximo. Todavia, a corretora acredita que a Venezuela poderia adicionar cerca de 300 a 500 mil barris de petróleo por dia em produção ao longo de doze meses de investimentos significativos.
“Em 36 meses, o país pode chegar a 1,5 milhão de barris por dia e atingir níveis de produção semelhantes aos 2,7 milhões, que a Venezuela produzia há cerca de uma década”, explica Regis Cardoso, que assina o relatório da XP. O analista argumenta que esse crescimento na produção de petróleo poderia causar queda no valor da commodity, visto que as premissas para 2026 e 2027 são de petróleo por volta dos 60 dólares.
“Com isso em mente, ficamos um pouco mais cautelosos em relação aos preços do petróleo, especialmente para empresas com maior alavancagem em relação aos preços do petróleo, como a Brava”, diz Cardoso. O analista da XP afirma que a PRIO seria a empresa brasileira mais segura em relação a uma provável queda do petróleo devido ao aumento da oferta via exploração dos poços venezuelano.
Já o analista da Ágora Investimentos acredita que a Petrobras seria outra empresa resiliente mesmo com queda do petróleo no longo prazo. Ele comenta que, mesmo em um longo prazo de queda do petróleo, a empresa ainda conseguiria gerar caixa com a commodity por volta dos 50 dólares. “Sendo assim, continuamos com uma visão positiva para a estatal até fora do cenário base”, conclui.
Em poucas palavras, os analistas enxergam a Chevron como empresa favorita para lucrar com o petróleo da Venezuela, mas fazem ressalvas de que os investimentos devem demorar anos. Por isso, o petróleo tende a continuar na faixa dos 60 dólares em 2026, pois os impactos nos preços da commodity neste momento são nulos. Já no longo prazo, com a retomada da produção da Venezuela, empresas como Petrobras e PRIO estão prontas para enfrentar preços baixos do ouro negro devido ao aumento da oferta.