O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, neste sábado (3), com bombardeios à Caracas e a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, provocou forte apreensão entre diplomatas brasileiros. À coluna, embaixadores classificaram o episódio como um fato sem precedentes recentes na América do Sul e avaliam que a reação internacional ainda é incerta.
“Além de violar diretamente a Carta da ONU sobre regras uso da força entre países, demonstra que ninguém mais está a salvo na região à ameaça e ao uso da força militar e da coerção”, disse um integrante do Itamaraty.
Segundo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o ditador está sob custódia em um navio militar americano no Caribe, de onde seriam levados a Nova York para julgamento. O norte-americano afirmou que o líder venezuelano e sua esposa responderão por acusações relacionadas a narcoterrorismo e tráfico de drogas.
No âmbito diplomático, ainda não há definição sobre uma eventual convocação de reunião de emergência da Organização dos Estados Americanos (OEA). Segundo um diplomata, a via considerada mais provável é o Conselho de Segurança da ONU, embora não esteja descartada uma discussão também na OEA. “Embaixadores ainda aguardam instruções de seus governos, e uma reunião na OEA tenderia a se limitar a discursos”.
Após a divulgação de um pronunciamento do presidente Lula nas redes sociais, diplomatas indicaram que aquela manifestação reflete, por ora, a posição oficial do governo. “Ainda não temos orientação específica sobre a OEA, inclusive porque o tema é de competência prioritária da ONU. Seguimos aguardando diretrizes”, disse um embaixador.
Na leitura desses interlocutores, a ação americana cria um precedente perigoso ao demonstrar que nenhum país da região estaria imune à coerção militar. Mesmo governos que hoje celebrem a ofensiva, por divergências ideológicas com Caracas, poderiam no futuro ser afetados por decisões unilaterais semelhantes, com perda de soberania e independência.
Diplomatas também alertam para o risco de maior instabilidade na Venezuela, com possibilidade de agravamento do fluxo de refugiados e aumento do caos regional. “Ninguém sabe ainda como reagir quando um dos países que foi garantidor da ordem internacional do pós-guerra passa a ser visto como sabotador dessa mesma ordem”.
Questionado sobre um possível isolamento do Brasil, um diplomata rejeitou essa hipótese. Segundo ele, a defesa do direito internacional e das instituições multilaterais pode, ao contrário, despertar outros países para os riscos do desrespeito às regras básicas entre Estados. “Nossa arma é o direito, não o poder militar. Seria miopia política apoiar a ação apenas por discordância ideológica do governo venezuelano”, concluiu, citando precedentes como Iraque, Afeganistão e Líbia.