Para alguns críticos, o inferno do paladar está reservado às almas penadas que fizeram um pacto com os vinhos suaves, pegando o caminho errado na encruzilhada que oferecia a alternativa do bom gosto. O preconceito contra os rótulos mais leves também engordou ao longo dos tempos a lista de piadas sobre o tema. Segundo uma elas, o branco suave “é quase um refrigerante com graduação alcoólica”. Quem nunca viu em um restaurante estrelado os discretos olhares de reprovação quando alguém em uma mesa pede ao sommelier uma opção mais “docinha”, justificando que nunca se deu bem com os vinhos secos?
Independentemente do preconceito que ainda há sobre o produto, o sucesso dos vinhos suaves no Brasil só aumenta. A maior parte do vinho que se consome por aqui ainda é justamente o suave, com percentual de açúcar alto, na casa de 20 gramas por litro, enquanto os secos normalmente têm menos de 4 gramas por litro. Os rótulos suaves representam um pilar importante para a evolução do mercado do país. Ainda estamos longe da média de consumo dos europeus ou até mesmo de vizinhos argentinos, mas saímos dos 2,2 litros per capta e estamos quase esbarrando nos 3 litros por pessoa, ao ano. Sem os suaves, vale ressaltar, esse salto não seria possível.
O que explica essa preferência? Esse paladar mais doce, pode ter algumas raízes, sendo que uma delas está relacionada ao alto consumo bebidas mais açucaradas, como sucos e refrigerantes. Nossas sobremesas também são bastante doces, como brigadeiros e quindins, se compararmos com as francesas ou italianas, por exemplo. Essa preferência por sabores mais suaves e adocicados torna os vinhos doces uma escolha atrativa, especialmente para quem inicia no mundo do vinho ou busca uma experiência mais prazerosa.
Quem trabalha no mercado de vinhos já aprendeu que não adianta brigar com o gosto das pessoas. Um maître do Fasano, um dos restaurantes mais elegantes e premiados do país, referência na excelência em enogastronomia, me confidenciou que “cansou” de servir os famosos risotos da casa com vinhos de sobremesa, porque o cliente não queria vinho seco. Harmoniza? Não, mas como contrariar a vontade do freguês?
A diretora geral da Moët Henessy no Brasil, Catherine Petit, contou-me de uma empresária bastante elegante que comemorou seu jantar de aniversário com menu de ponta a ponta harmonizado com a Veuve Clicquot Rich. A champanhe doce da marca, que custa cerca de R$ 1.000, é recomendada para acompanhar sobremesas à base de frutas cítricas ou tropicais, ou para coquetelaria com bastante gelo na taça. Enquanto as champanhes Brut (8g a 15g de açúcar por litro) ou Nature (até 3g de açúcar por litro) são os mais cobiçados por enófilos e sommeliers, os demi-sec da marca francesa, que têm entre 20 a 60g de açúcar por litro, são as que mais vendem nos restaurantes brasileiros.
Em visita recente ao Brasil, Marcelo Papa, enólogo chefe da gigante chilena Concha y Toro, disse que, entre os lançamentos da marca, o que tem alcançado imenso sucesso por aqui é o da linha Casillero del Diablo suave. Ele teve um salto de vendas de 60 mil caixas em 2021 para 215 mil caixas de 12 unidades em 2024, segundo a Ideal Pesquisas e Consultoria. “Hoje, nosso grande desafio é convidar e cultivar novos consumidores, e os vinhos com mais dulçor costumam nos aproximar desse público que não tem tanta experiência em vinho. Uma vez introduzidos nesse universo, normalmente essas pessoas vão evoluindo para vinhos mais secos”, disse Papa à coluna.

Atenta a essa movimentação de mercado, Karene Vilela, head de relações internacionais do grupo português Bacalhoa, conduziu pessoalmente um estudo para lançar a versão doce do vinho Casal Garcial, o Casal Mendes Sweet, que deve desembarcar em breve no Brasil. “Sem dúvida estamos seguindo a tendência dos grandes players do mercado com esse lançamento, que foi pensado para o público brasileiro”, contou-me ela. Sobre os vinhos doces serem a porta de entrada ou o caminho para os vinhos secos, Karine descorda do colega chileno. “Acredito que está tudo bem a pessoa tomar vinho doce para o resto da vida. Se ela entra no mundo vinho por um Casal Mendes Sweet, depois descobre o moscatel de Setúbal, com sua acidez vibrante, residual de açúcar e leve amargor para balancear. Ele é de uma beleza incrível”, diz. E completa: “Essa história de quem gosta de vinho doce não entende de vinho é um mito criado por enochatos”. Com ela está o crítico do New York Times Eric Asimov, que diz o seguinte: “Não há nada de errado em gostar de vinhos leves e doces. O erro está em pensar que só a força e a secura são sinais de qualidade”.

Esta colunista aqui não resiste a um moscato com um pedacinho de queijo mais curado para encerrar uma refeição. O que harmoniza com o que crítico britânico Hugh Johnson diz: “São vinhos que falam de alegria e não solenidade”. A reverenciada inglesa Jancis Robinson, já prestou reverência a Rieslings e Moscatos. “Há vinhos que não precisam de peso ou taninos para encantar. A leveza pode ser uma virtude”, assegurou a especialista.
Vinhos doces não são inferiores. Muitos deles são complexos, cuidadosamente elaborados e podem harmonizar perfeitamente com a comida. A ideia equivocada de que vinhos doces são de baixa qualidade muitas vezes decorre de experiências negativas com bebidas açucaradas produzidas em massa. Vinhos doces de alta qualidade possuem equilíbrio, sabores ricos e alta acidez. Técnicas como usar uvas de colheita tardia, congelar uvas na videira (para Eiswein/Ice Wine) ou interromper a fermentação intencionalmente criam uma doçura natural, resultando em estilos diversos, desde leves a intensos.
Para os preconceituosos com o coração cheio de amargura, ofereço um brinde — bem docinho!