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Manifestações no 7 de Setembro criam tensão política e preocupam autoridades

No dia 6 de setembro, uma hora antes de o relógio virar e o calendário mudar para a data em que o país celebra o 203º ano da Independência, a Esplanada dos Ministérios, a Praça dos Três Poderes e vários outros espaços estratégicos de Brasília já começarão a ser fechados pelas forças de segurança. Toda a movimentação pela capital passará a ser vigiada por drones e 1 300 câmeras monitoradas por setenta pessoas em uma central da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Pela primeira vez, a segurança da região onde ocorrerá o desfile cívico-militar será conduzida pelo Comando Militar do Planalto, à frente de um efetivo de 4 500 militares. Quem circular pelas áreas mais críticas terá de passar por uma revista, baseada em uma extensa lista de objetos proibidos, como substâncias inflamáveis (incluindo perfumes), mastros de bandeiras, fogos de artifício, máscaras, coolers e barracas.

Mais do que garantir a celebração do Dia da Pátria, a preocupação é evitar distúrbios entre grupos políticos rivais, à direita e à esquerda, que têm encontros marcados, não só em Brasília, mas em ao menos vinte capitais do país. Cada bloco sairá às ruas com bandeiras antagônicas. Apoiadores de Lula vão utilizar o slogan “Brasil soberano”, que prega respeito ao país diante da guerra tarifária e da pressão política impostas por Donald Trump, presidente dos EUA. Já os apoiadores de Jair Bolsonaro vão criticar as investigações que envolvem o ex-presidente e os magistrados responsáveis pelos julgamentos, além de demonstrar apoio a Trump e à aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes e defender que mais retaliações desse tipo sejam aplicadas, inclusive a outras autoridades do Judiciário, até que os casos contra Bolsonaro sejam arquivados e ele possa disputar a eleição.

REAÇÃO - Silas Malafaia: ato em São Paulo será o primeiro desde que ele foi alvo de ação de busca e apreensão
REAÇÃO - Silas Malafaia: ato em São Paulo será o primeiro desde que ele foi alvo de ação de busca e apreensãoRaul Luciano/Ato Press/Ag. O Globo/.

Um dos pontos de maior atenção no país é a capital federal, que estará sendo palco do julgamento de Bolsonaro e mais sete acusados por tentativa de golpe de Estado. As sessões da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, que julga o caso, serão realizadas entre 2 e 12 de setembro, o que transformou o Dia da Pátria, tradicional data de manifestações, em um evento com potencial para repercutir as tensões do mais importante processo judicial da história política. Na manhã em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os chefes do Congresso e do STF estiverem no desfile oficial, na Esplanada, bolsonaristas e esquerdistas estarão a 5 quilômetros dali. Os manifestantes de direita ficarão na Torre de TV, e os de esquerda, na Praça Zumbi dos Palmares — a distância entre os locais é de 2,5 quilômetros. “Cada um tem sua área para fazer manifestação organizada, do jeito que preferir. Mas a área do desfile será controlada. Nenhum veículo vai poder ficar parado, haverá varredura no sábado e no domingo e todo mundo que entrar na região passará por revista”, diz Alexandre Patury, secretário-executivo de Segurança Pública do DF.

A preocupação com a segurança não é gratuita. Ainda estão vivos na memória os distúrbios ocorridos na véspera do 7 de Setembro de 2021, quando, por sete vezes, manifestantes tentaram invadir o prédio do STF. O clima de tensão fez o presidente da Corte à época, Luiz Fux, ligar para o governador Ibaneis Rocha e comandantes militares para exigir proteção ao Supremo. No dia seguinte, um grande aparato policial se posicionou no Eixo Monumental, o que não evitou que ao menos um grupo tentasse arrancar as grades que impediam o acesso ao STF, obrigando policiais militares a usar spray de pimenta. Os distúrbios vieram na esteira da radicalização de Bolsonaro, que naquela data subiu o tom contra Moraes. “Não mais aceitaremos qualquer medida, qualquer ação ou qualquer sentença que venha fora das quatro linhas da Constituição”, disse o então presidente no ato em Brasília. Aquela movimentação bolsonarista acabou sendo um prólogo do que viria a acontecer no final de 2022, quando novos distúrbios chacoalharam a capital durante a diplomação de Lula, e principalmente em 8 de janeiro de 2023.

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IDEIA NA CABEÇA - Lula com boné usado em reunião ministerial: o PT vai levar pregação sobre soberania a atos
IDEIA NA CABEÇA - Lula com boné usado em reunião ministerial: o PT vai levar pregação sobre soberania a atosRicardo Stuckert/PR

Brasília preocupa por ser a sede da República, mas há atenção também com outras cidades, principalmente São Paulo, palco das maiores concentrações. Os apoiadores de Bolsonaro estarão na Avenida Paulista (onde já fizeram dois grandes atos neste ano) e os simpatizantes de Lula, na Praça da República — a distância entre os dois locais é de apenas 2,6 quilômetros e pode ser percorrida de metrô. O ato da esquerda está marcado para as 9 horas, enquanto o da direita ocorrerá às 15. A Polícia Militar vai montar uma operação especial, porque é provável que os dois blocos politicamente rivais estejam nas ruas ao mesmo tempo em algum momento. No Rio de Janeiro, a direita se aglomerará na orla de Copacabana pela manhã, ao mesmo tempo que apoiadores do governo se reunirão na confluência da Rua Uruguaiana com a Avenida Presidente Vargas, no Centro, a quase 10 quilômetros de distância.

Embora já tenham acontecido atos concomitantes da esquerda e da direita em outros momentos recentes do país, há ao menos dois pontos que fazem a diferença. Um, claro, é o fato de elas ocorrerem em meio ao julgamento de Bolsonaro, o que é visto como combustível certo para elevar a tensão. O outro é que há um envolvimento bastante direto do governo e do partido de Lula, o PT, na organização das manifestações. Os atos vêm sendo convocados pelo partido em todos os seus canais (redes sociais, site, grupos de WhatsApp e perfis no YouTube) e foram tema de conversas no fim de semana passado, durante encontro que reuniu as principais lideranças da sigla, incluindo ministros como Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) e Márcio Macêdo (Secretaria-Geral da Presidência). “Dia 7 de setembro é dia de ir às ruas em defesa da nossa soberania e da democracia. Não é um ato de um partido. É o povo brasileiro unido, com sindicatos, movimentos sociais e todos que acreditam em um Brasil forte e livre do fascismo”, afirmou o presidente da sigla, Edinho Silva, em vídeo distribuído à militância.

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TENSÃO - Manifestantes bolsonaristas na Esplanada no 7 de Setembro de 2021: sete tentativas de invadir o prédio do STF
TENSÃO - Manifestantes bolsonaristas na Esplanada no 7 de Setembro de 2021: sete tentativas de invadir o prédio do STFHeitor Mazzoco/.

Embora diga que seja um ato “do povo brasileiro”, o slogan que embala a convocação petista é basicamente uma emulação do discurso do governo. Aproveitando que o tarifaço de Trump deu a Lula a oportunidade de sair das cordas — para onde havia sido jogado pela letargia de sua gestão e pela consequente perda de popularidade —, o governo abraçou com força um discurso nacionalista para se contrapor ao que considera “vira-latismo” dos Bolsonaro em relação aos EUA. A postura foi ilustrada pela excêntrica reunião palaciana de terça-feira 26, quando todos os ministros usaram um boné azul com a inscrição “O Brasil é dos brasileiros”, com o qual posaram para fotos (alguns constrangidos). “O Brasil é de todos e todas e não tem dono aqui dentro nem lá fora”, mimetiza o perfil oficial do PT ao convocar a sua militância nas redes.

Do lado da direita, a ideia é fazer mais pressão sobre o Supremo. O tom contra a Corte e seus magistrados deve subir, não só por Bolsonaro estar próximo de receber uma sentença pesada, mas também pelo fato de que o principal pregador das ruas, o pastor Silas Malafaia, está acossado por investigações da Polícia Federal determinadas por Moraes. Coordenador do maior de todos os atos, na Avenida Paulista, Malafaia estará ao microfone no palco principal pela primeira vez desde que foi alvo de uma operação de busca e apreensão pela PF, no último dia 20. Ele foi detido no aeroporto por policiais, quando voltava de Lisboa, levado para prestar depoimento, teve celular e passaporte apreendidos e recebeu medidas cautelares, como a proibição de deixar o país e de conversar com outros investigados. Ele é acusado de conspirar com o deputado federal Eduardo Bolsonaro para conseguir ações que atrapalhem o andamento do processo do ex-presidente. Áudios disponibilizados no processo mostram conversas entre Malafaia, Jair Bolsonaro e o Zero Três que, segundo a PF, comprovariam uma tentativa de obstrução de Justiça. Apesar de ter gravado vídeos, como é de seu costume, criticando a investigação, Malafaia diz que a ofensiva contra ele vai engrossar a mobilização, porque despertou a solidariedade dos evangélicos. Afirmou ainda que espera que os atos ocorram sem turbulências e que será uma oportunidade para mostrar a força da direita: “É muito legal o PT ter convocado manifestação, porque vamos comparar, vai ser muito lindo”.

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PROTEGIDO - Viaturas no Supremo: segurança reforçada em meio a julgamento
PROTEGIDO - Viaturas no Supremo: segurança reforçada em meio a julgamentoEvaristo Sa/AFP

O direito de manifestação é uma prerrogativa inegociável de toda democracia e o fato de todos poderem ir para as ruas dizer o que pensam mostra quão despropositada é a pregação bolsonarista de que o país vive sob uma ditadura. A prerrogativa democrática de se expressar, no entanto, está limitada pelo respeito à lei e à ordem e ao convívio com quem pensa diferente. Cenas como as vistas em 2021, 2022 e 2023 não podem se repetir. Um bom jeito de celebrar a Independência será mostrar que estamos evoluindo nisso.

Publicado em VEJA de 29 de agosto de 2025, edição nº 2959

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