No final de junho, Ribeirão Preto (SP) abriu suas portas para 600 pessoas de 40 países, que participaram da Conferência Mundial de Agronegócios e Alimentos do IFAMA. Foi a primeira vez que o Brasil recebeu o evento, em 35 anos de história. Neste artigo, abordaremos um dos principais temas do evento, que representa o foco atual de diversos líderes globais das cadeias agroalimentares: a fome, uma tristeza ainda presente.
A condição de insegurança alimentar ainda atinge 28,5 milhões de pessoas no Brasil e 7,1 milhões se encontram em situação de fome extrema, segundo o relatório “O Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI)”, da ONU. Quando expandimos essa visão para o restante do mundo, são cerca de 1,4 bilhão de pessoas em insegurança alimentar e quase 300 milhões classificadas em um nível severo de fome, segundo dados da FAO, divulgados na palestra de Beth Bechdol, durante o fórum global de negócios do IFAMA 2025.
Beth ainda cita três principais pilares para a atual crise da alimentação global: guerras e conflitos (a), que podem impactar diretamente a produção, transporte e logística, e indiretamente por meio de sanções econômicas, alta dos custos de produção e dos preços finais dos alimentos; mudanças climáticas (b), que afetam fortemente a produtividade agrícola devido as unidades produtivas serem verdadeiras fábricas à céu aberto; e desacelerações econômicas, influenciadas pela alta inflação, altas taxas de juros e baixos incentivos à produção agrícola.
A grande pergunta que fica é: “Como o agro pode contribuir para o fim da fome mundial?”. Todos os atributos mencionados nesse texto devem culminar em um só fim: construir uma nova narrativa para o agro global, como muito bem levantado por Manuel Otero, em sua palestra durante o fórum. Não é apenas uma questão de marketing, e sim de direcionador estratégico para todas as empresas do setor. Essa nova história deve ser construída sobre os pilares da inovação, tecnologia e ações coletivas.
No âmbito da inovação, Beth traz a ideia aplicada em 5 diferentes formas dentro de um sistema transformador: inovação tecnológica; inovação social; inovação financeira; inovação institucional/imagem; e inovação na política/cultura. No centro dessa rede devem estar as pessoas que serão atingidas por essa transformação.
Para o quesito tecnologia, podemos citar inúmeras atividades já praticadas no Brasil e em grandes países líderes em tecnologia no agro: insumos biológicos, agricultura regenerativa, biotecnologia, e novas máquinas, equipamentos e softwares de inteligência artificial que baixarão custos de produção e possibilitarão produzir mais com menos.
Tanto Beth como Manuel concordam que para gerir e desenvolver esse plano transformador nas instituições agrícolas e para o setor como um todo, são necessárias lideranças preparadas e alinhadas com as novas políticas que mudarão a imagem do agro, além de alianças estratégicas entre as empresas envolvidas nesse desenvolvimento.
A construção desta nova narrativa do agro tem fortes aliados e reafirma a nobre missão do setor: garantir a segurança alimentar e o acesso a alimentos de qualidade para o consumidor final, em uma população global cada vez maior. Essa missão se cumpre não de forma isolada, mas por meio de um sistema integrado, que funciona como um motor ao gerar e distribuir renda para economias locais e também para outros segmentos da economia nacional e global.
Para alcançar metas (dentro e fora da porteira), alguns fatores são essenciais: unir forças por meio de ações coletivas; comunicar bem essas ações; compromisso com a excelência operacional e ambiental; e acima de tudo, liderar e formar pessoas preparadas para conduzir essa transformação. Ao abraçar esses pilares, o agro não apenas se consolida como a solução para a fome, mas também como um pilar fundamental para um futuro mais próspero e sustentável.
Observação: as palestras citadas ao longo do artigo – e outras realizadas durante a Conferência Mundial de Agronegócios e Alimentos do IFAMA – estão disponíveis gratuitamente no canal da Harven Agribusiness School, no YouTube.
Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e fundador da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em doutoragro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves). Agradecimentos a Vinícius Cambaúva e Rafael Rosalino.