Em algumas situações, a visão das corujas é 100 vezes melhor que a dos humanos. Não só pela configuração interna de seus olhos como pela capacidade de girar a cabeça até 270 graus para ampliar o campo visual.
Escolhi começar o texto com dados aleatórios não só porque sou nerd e adoro infos assim, mas devido a uma IA cujo nome é inspirado nessas aves noturnas. The Owl (coruja em inglês) é um robô com inteligência artificial que entrou em cena na seara dos esportes radicais. O diferencial? Uma precisão na análise das manobras capaz de prever o pódio antes mesmo de os juízes humanos anunciarem o resultado. Ou seja, enxerga bem como o bicho que homenageia.
Beleza, mas por que isso é relevante, se a gente sabe que já tem IA sendo usada em um monte de esporte?
É que inteligências artificiais são muito boas em entenderem regras claras, como as do vôlei e do futebol, por exemplo. Então, sensores, câmeras e algoritmos detectam eventos específicos (toques na bola, faltas, posições) e comparam movimentos com padrões técnicos estabelecidos de maneira mais fácil e precisa.
Nos esportes radicais, as manobras incluem movimentos intricados do corpo, como giros, flips, combinações difíceis e variações de estilo que não são necessariamente quantificáveis por medidas objetivas simples.
Nos X Games recentes, tanto na modalidade de inverno quanto na de verão, a Owl bateu suas asas (não literalmente, é só jeito de deixar o texto mais charmoso, leitor) para ajudar a pontuar os atletas. E, após assistir aos treinos dos competidores, previu com precisão a ordem do pódio masculino no Superpipe. Sim, antes mesmo das competições oficiais.
Os resultados empolgaram a organização dos X Games, que decidiu transformar a Owl AI em um negócio próprio. Jeremy Bloom, CEO da competição, lançou uma empresa dedicada a essa tecnologia, liderada pelo ex-chefe de IA do Google, Josh Gwyther. A plataforma recebeu um aporte de US$ 11 milhões para expandir o uso em outros esportes com arbitragem e pontuação subjetiva.
Existe um discurso, usado bem frequentemente, de que o objetivo não é substituir o olhar humano. E, sim, atuar como um complemento. Isso pode ser verdade hoje, mas eu aposto que tão logo a IA se torne ainda mais eficiente, em muitos casos vai, SIM, dispensar a participação de gente de carne e osso.
Mas, é claro, atualmente essa parceria entre homem e máquina pode mesmo tornar as decisões mais justas e transparentes.
Em que outros esportes se usa IA para julgar?
Nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, a inteligência artificial teve papel de destaque em esportes como ginástica e vôlei. Sistemas de IA ajudaram juízes a atribuir pontuações mais precisas e a acelerar decisões que, antes, demoravam minutos e geravam controvérsias.
Atletas da ginástica artística contaram com algoritmos que avaliaram seus movimentos com base em padrões técnicos, enquanto no vôlei câmeras inteligentes identificam cada toque na bola. Os jogos franceses foram marcados também pelo uso da IA na preparação dos atletas: as delegações receberam acesso à tecnologia para analisar movimentos e recordes anteriores.
No futebol, o VAR e o sistema semiautomático para checagem de impedimentos têm ampliado a precisão das decisões em campo. No tênis, o Hawk-Eye – olha a analogia com as aves aí outra vez – garante decisões rápidas e certeiras, evitando discussões sobre bolas “dentro” ou “fora”. Na Fórmula 1, sensores alimentados por IA fiscalizam o cumprimento das regras em alta velocidade.
A introdução da IA no universo esportivo dá margem a debates. De um lado, há o entusiasmo pela redução dos erros e pela transparência que a tecnologia oferece. De outro, cresce a preocupação com o risco de perder o toque humano, aquele olhar qualitativo capaz de perceber nuances de criatividade e estilo, difíceis de serem quantificados por máquinas.
O público se divide entre comemorar decisões mais justas e sentir saudade de bater boca devido a decisões polêmicas dos juízes. Aquela exaltação de mesa de bar, sabe? E a vida é feita de emoção, afinal de contas. Então melhor aproveitar enquanto a coruja de IA não faz seu ninho de uma vez por todas.