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Pepino à vista

Uma preocupação ronda os Estados Unidos, de uma costa a outra: o possível sumiço de um ingrediente central para diversos preparos de sua culinária. Pode parecer exagero, mas alguém concebe o típico sanduíche de pastrami das delis de Nova York sem o acompanhamento do pepino? Ou um Big Mac sem o picles?
Pois é. Mas acontece que, segundo uma estimativa recente, 90% do pepino consumido no país vem de fora. Por isso, grupos da indústria vêm se mobilizando para que o vegetal entre na lista dos alimentos isentos das tarifas de importação anunciadas pelo governo de Donald Trump.

Originalmente, o pepino vem de muito longe. Foi domesticado na Índia e no Himalaia há mais de 3.000 anos, aparecendo em textos sagrados antigos. Até hoje, é muito usado por lá na “raita”, um molho temperado de iogurte, que ganhou uma versão similar na Grécia, o “tzatziki”.
Aliás, pelas bandas do Mediterrâneo, o pepino agradou muito aos romanos. Conta-se que o imperador Tibério queria se fartar deles o ano todo e mandou construir estruturas de vidro, semelhantes às nossas estufas, para cultivá-lo em qualquer temporada – coisa que os agricultores americanos de hoje teriam de fazer para responder à demanda doméstica, tornando seu preço inviável.

Pelo mundo antigo, o pepino se espalhou rapidamente, aparecendo até na Bíblia. Para as Américas, foi levado na bagagem de Cristóvão Colombo.
Como um vegetal que precisa de clima quente e úmido, ele logo se aclimatou deste lado do Atlântico, primeiro nos assentamentos europeus, depois em roças indígenas. Hoje é bastante popular entre os países hispânicos do continente, como o México. Nos Estados Unidos, ele se difundiu principalmente na forma em conserva, a partir da chegada dos imigrantes judaicos da Europa oriental, já no século 19.

Além de precisar de calor e proteção, o cultivo do pepino tem algumas outras peculiaridades. Trata-se de uma trepadeira, de caule flexível, que precisa ser guiada para crescer com vigor. É daí que vem o ditado, muito comum em Portugal e por aqui também, que diz que “é de pequenino que se torce o pepino”. Se a planta não é conduzida pelo caminho certo no começo, depois não tem mais jeito.

Mas também suas qualidades nutricionais o inseriram na cultura popular. Como vários vegetais aparentados, por exemplo, a melancia, é rico em água. Assim, por muito tempo se atribuiu a ele um efeito benéfico para a pele. Não por acaso virou símbolo dos rituais de beleza. Quem nunca viu, em alguma velha estampa publicitária ou em cenas de filmes de outros tempos, a clássica imagem da mulher de roupão, com rodelas verdes sobre os olhos?

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Ao mesmo tempo, o pepino carrega outra reputação menos simpática: a de ser indigesto. Por isso mesmo, entrou para a linguagem popular como um problema de difícil resolução, que fica voltando.
É uma fama injusta que, na verdade, vem de duas qualidades do pepino. Por ter muita água e alto teor de fibras, pode parecer pesado se consumido em excesso. Mas, por essas mesmas características, é refrescante e light, o que permite seu uso em diferentes receitas amigas da boa nutrição.

Seja como for, a metáfora vale para a situação que hoje os agricultores americanos enfrentam. Se não conseguirem resolver a questão tarifária, estarão com um belo pepino em mãos.

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