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Palavras que ferem

Fico espantado com o quanto as pessoas se agridem no dia a dia, até sem se darem conta do peso das palavras. Ultimamente cresceu a consciência em torno de situações como a gordofobia, ainda bem. Agressões sob a capa do bom humor são comuns para pessoas com sobrepeso. Eu mesmo já sofri com “brincadeiras” mexendo com minha barriga. Não chega a ser um problema para mim que leve à depressão e angústia, como já vi acontecer com outras pessoas. Mas também é chato ser o alvo de piadas numa mesa justamente quando acabo de botar uma picanha no prato. Pior quando a conversa imita um conselho construtivo: “Falo para seu bem, não pensa em fazer regime?”.

Sim, eu penso. Com toda a certeza. Mas não no instante em que uma picanha saborosa acaba de aterrissar no meu prato. O ruim de certos conselhos não é nem sequer o que é dito, mas o momento que se escolhe para dizer. Pessoas venenosas costumam dar a picada no instante de maior prazer do outro. Avisam que massa engorda diante de uma boa macarronada, que alguém está bebendo demais em uma comemoração (mesmo que se esteja apenas no segundo brinde). Se a criança é baixa, dizem pra mãe que ela precisa crescer. Mas, se é alta, que está comprida demais. Criticam o nariz (quando é grande), as orelhas (se de abano), a voz (se é fina ou grossa). Se o filho de alguém sai demais para a noite, vem o aviso para tomar cuidado. Se é introspectivo e fica em casa, “pode ser algum problema, na idade dele ninguém se comporta assim”.

“Os venenosos dão a picada no momento de prazer. Para os fiscais da vida alheia, nunca nada está bom”

Eu me refiro aos fiscais da vida alheia, para quem nunca nada está bom — a não ser eles mesmos. Cresci em uma cidade do interior de São Paulo (Marília, que hoje até cresceu bastante). Na época era pequena, e todos sabiam da vida alheia. Talvez eu mais que todos (confessei!). Minha mãe tinha um pequeno bazar, cujo balcão equivalia a uma central de notícias entre ela e as freguesas. Eu ouvia em silêncio, enquanto tentava soletrar as primeiras letras em um caderno. Talvez as histórias de amor que escrevo hoje tenham suas sementes nos romances reais contados na beira daquele balcão.

Mas incrível era a facilidade da crítica, em tempos em que saia curta era escândalo, beijo na rua alvoroçava a criançada e casamento com festa era acontecimento.

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Tudo se comentava. Se o vestido da noiva tinha decote, ai meu Deus! Um escândalo. As pessoas não deixavam nada passar em branco. Muita gente saía machucada, muita vizinha brigava. As palavras tinham o incrível poder de desarrumar a vida alheia, até de estremecer casamentos.

Cresci com esse horror a comentários, a venenos. Mas há algo que sempre quis saber. Perto de casa havia um convento, da época em que as freiras ainda usavam hábito e longos véus brancos. Sempre quis saber se elas eram carecas. O tempo passou, cresci, e o uso de hábito para as religiosas acabou. Mas essa única informação venenosa nunca ninguém me contou. Afinal, as freiras eram carecas ou não?

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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