A representação brasileira na ONU condenou nesta sexta-feira, 23, a repressão dos protestos no Irã durante reunião do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, na Suíça. Trata-se da primeira vez que a diplomacia do Brasil rejeita oficialmente o “uso de força letal” contra os manifestantes. Mais de 5.000 pessoas, entre civis e forças de segurança, foram mortas nos atos contra o aumento do custo de vida e a crise inflacionária, que começaram em 28 de dezembro.
“Condenamos fortemente o uso de força letal contra manifestantes pacíficos e estamos preocupados com relatos de prisões arbitrárias e de crianças como alvo. Notamos que bloqueios da internet violam o direito de liberdade de expressão, incluindo de acesso à informação”, disse Tovar da Silva Nunes, embaixador do Brasil na ONU.
Apesar da subida de tom, a representação brasileira absteve-se de votação de resolução apresentada por países críticos ao regime dos aiatolás, incluindo Alemanha e Reino Unido, que apelava por investigações sobre violações dos direitos humanos no Irã. O texto foi aprovado por por 25 votos a favor, 7 contra e 14 abstenções. Nunes salientou que “o Brasil sustenta que apenas o povo iraniano tem o direito soberano de determinar o futuro do país”, no que soou como indireta ao presidente dos EUA, Donald Trump, que diz considerar opções militares.
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“O Brasil sustenta que apenas o povo iraniano tem o direito soberano de determinar o futuro do país. Reitera sua condenação a medidas unilaterais coercitivas contra o Irã. Ressaltamos que essas medidas impactam negativamente os direitos humanos da população e exacerbam os desafios econômicos do país, que servem de pano de fundo para as atuais manifestações”, concluiu ele.
O alto comissário de direitos humanos da ONU, Volker Türk, instou “as autoridades iranianas a reconsiderar, recuar e colocar um fim à sua brutal repressão”. Teerã, por sua vez, condenou a reunião e disse que os países que patrocinaram a sessão “nunca se importaram genuinamente com os direitos humanos dos iranianos”, acrescentando: “De outro modo, não teriam imposto sanções desumanas, violando os direitos básicos de todos os iranianos, nem teriam apoiado a guerra de agressão de Israel que matou e feriu mais de 5.000 iranianos”.
Na quarta-feira, 21, o Irã anunciou o fim dos protestos. Enquanto isso, o apagão de internet continua no país, enquanto organizações independentes relatam truculência das forças iranianas. A agência de notícias Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos EUA, apontou nesta sexta que ao menos 5.002 pessoas foram mortas desde o início dos protestos, em 28 de dezembro, dos quais 4.716 eram manifestantes, 203 pessoas ligadas ao governo, 43 crianças e 40 civis que não participavam dos atos. Mais de 26 mil também foram presas.