Uma nova declaração de Donald Trump provocou forte reação entre veteranos de guerra, líderes políticos e familiares de soldados europeus que atuaram na guerra do Afeganistão. Ao afirmar que tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) teriam permanecido “um pouco fora da linha de frente” durante o conflito, o presidente dos Estados Unidos foi acusado de minimizar o sacrifício de aliados que combateram ao lado das forças americanas ao longo de duas décadas de guerra.
Veteranos de diversos países europeus classificaram a fala como ofensiva e exigiram um pedido formal de desculpas. “Trump cruzou uma linha vermelha. Pagamos por essa aliança com sangue”, afirmou à agência de notícias Reuters o general polonês reformado Roman Polko, que serviu no Afeganistão e no Iraque. Segundo ele, centenas de soldados europeus morreram em combate ao lado dos Estados Unidos.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, acusou Trump de “diminuir o sacrifício” das tropas da Otan e lembrou que apenas o Reino Unido perdeu 457 militares no conflito. “Temos enorme orgulho das nossas forças armadas e do preço que elas pagaram”, disse um porta-voz do seu governo.
A fala de Trump foi feita em entrevista à emissora conservadora Fox News, na qual ele voltou a questionar a importância da aliança transatlântica e sugeriu que os Estados Unidos “nunca precisaram” da Otan. Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o republicano já havia tensionado as relações com aliados europeus ao reiterar seu interesse em adquirir a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.
Críticos também relembraram que Trump evitou a mobilização militar durante a guerra do Vietnã, alegando que tinha problemas médicos. “Como alguém que nunca serviu nas Forças Armadas ousa questionar o sacrifício de quem deu a vida?”, escreveu o líder liberal-democrata britânico Ed Davey.
Invocado apenas uma vez na história, após os atentados de 11 de setembro de 2001, o Artigo 5 da Otan, a famosa cláusula de defesa coletiva, levou aliados europeus a se juntarem à missão liderada pelos Estados no Afeganistão contra a “guerra ao terror”.
Países como Canadá, França e Polônia ressaltaram suas perdas humanas no Afeganistão — um conflito que matou mais de 3.400 soldados da Otan, dos quais cerca de 2.460 eram americanos. A Dinamarca, que entrou em rota de colisão com Trump devido à Groenlândia, teve 44 mortes em combate na guerra que se arrastou durante todo o início do século XXI, o maior número per capita fora dos Estados Unidos.