No mercado do vinho, mulheres sofrem para romper a bolha machista. Nesse contexto, mais extraordinário ainda é quando uma trans consegue ganhar popularidade e prestígio falando do assunto de uma forma divertida e original. Esse é o caso de Tyler Balliet, cujo último livro, “O Guia Revolucionário do Vinho”, lançado no final do ano passado no Brasil, foi escrito justamente enquanto ela havia iniciado a transição de gênero, um processo que mudou também sua percepção de paladar. “O mais chocante foi perceber o quanto as mulheres sentem e vivenciam o vinho de forma diferente, e como essas diferenças são sistematicamente descartadas pelos homens”, contou ela à coluna AL VINO. Confira aqui o vídeo:
Americana, filha de bebedores de cerveja de Wisconsin, Tyler começou a trabalhar em lojas de vinho em Boston, quando entendeu que deveria estudar e escrever sobre o assunto para oferecer melhores respostas a seus clientes. Tornou-se uma especialista no assunto e figurou na capa de uma das bíblias do setor, a Wine Enthusiast, como uma das pessoas mais influentes com menos de 40 anos do mercado. Em termos financeiros, a carreira parecia fadada a virar vinagre, segundo ela, “depois de algum tempo almoçando em restaurantes com estrelas Michelin, mas sem dinheiro para pagar o celular no final do mês”. O destino mudou quando começou a fazer eventos que se transformaram em grande sucesso.
Um deles foi a Rosé Mansion, um espaço na Quinta Avenida, em Nova York, em que os cômodos harmonizavam com os vinhos. Sem patrocínio de vinícolas ou importadoras, o evento recebeu mais de 80 mil pessoas que pagaram US$ 45 de entrada durante as 16 semanas de exibição. “Por mais ‘instagramável’ que fosse, era um lugar repleto de informação, havia uma sala estilo Roma antiga em que se servia um Aglianico rosé, uva que se acredita ter sido cultivada perto de Pompeia desde antes da erupção do Vesúvio, em 79d.C.”, conta.
Por critérios pessoais e profissionais, Tyler Balliet é uma especialista que não se encaixa em rótulos. Ela explica que escreveu “O Guia Revolucionário do Vinho” porque estava cansada de ver algum funcionário em uma loja de vinhos menosprezar uma mulher com mestrado em biologia molecular (sim, Tyler tem um currículo e tanto). “Queria dar às pessoas informação para rebater isso e degustar o vinho de maneira que lhes traga felicidade”, afirma.

A obra de Tyler é tão saborosa e divertida quanto tomar champanhe em sábado ensolarado na praia — nada de aromas disso, ou notas daquilo. Segundo ela, esse é o tipo de abordagem que mais afasta do que aproxima o público do vinho. É uma leitura tão boa que dá para desculpar pequenos pecados, como uma abordagem defasada sobre a produção brasileira. Autora de ótimas pérolas (“com suhi, tatuagem e Pinot Noir não se deve economizar”, ou “homem dizendo que tipo de vinho mulher tem de gostar é sexismo, não hospitalidade”), Tayler desmonta preconceitos e fala desse universo de maneira clara, divertida e mais informativa do que muito curso caro e esnobe do mercado.
Ainda hoje, entre cartas extensas, taças corretas e discursos técnicos, o vinho segue sendo explicado — e muitas vezes imposto — por homens que se colocam como autoridade absoluta sobre o gosto alheio. Na entrevista a seguir concedida à coluna AL VINO, a autora expõe essa contradição com coragem e clareza: questiona a linguagem excludente da indústria, denuncia o sexismo estrutural que atravessa lojas, restaurantes e formações profissionais e lembra um dado incômodo que o setor insiste em ignorar — são as mulheres que sustentam grande parte do mercado, mas seguem sendo tratadas como se não soubessem o que estão bebendo. Mais do que falar de vinho, ela fala de poder, escuta e pertencimento.
Você diz no livro que a forma como falamos sobre vinho está toda errada. Qual seria a forma correta?
Limitar a conversa sobre vinho a sabores, aromas e métodos de produção é fazer um desserviço a ele. Assim como a arte e a música, as histórias por trás do vinho dão significado e acrescentam um elemento emocional que é fundamental. Na faculdade, fiz uma disciplina de arte moderna e estudamos um artista que ficou olhando para uma folha de papel em branco por 1.000 horas. Só isso. Na época, achei meio idiota, mas anos depois encontrei essa obra em um museu e não consegui parar de olhar. Fiquei completamente encantada. O que aquele artista estava pensando durante todo aquele tempo? A história foi o que tornou aquela obra tão incrível — e com o vinho é exatamente a mesma coisa. Precisamos contar a história real por trás do vinho. Quem o fez? Por que o fez? Como ele surgiu? Nem todos os vinhos têm grandes histórias, mas aqueles que têm conquistam você para a vida inteira.
Por que tantos apreciadores de vinho se comportam de maneira esnobe ao falar sobre o assunto?
Ego? Talvez tenham sofrido bullying na escola e agora queiram fazer o mesmo com os outros? Não tenho nenhuma tolerância para esse tipo de comportamento. O vinho precisa ser mais inclusivo.
Qual é a diferença entre comunicar sobre vinho pensando nos millennials e em outros públicos?
Cada geração se comunica de forma diferente. Se você quisesse atingir os Baby Boomers nos anos 1970, anunciaria na revista Rolling Stone. Para a Geração X, iria à MTV nos anos 1990. Os millennials foram a primeira geração a se comunicar pela internet durante toda a vida adulta, e a Geração Z não sabe como é o mundo sem o iPhone. Trata-se de formatar a informação da maneira como os millennials se sentem mais confortáveis em consumi-la.
Falando sobre seu livro, na seção “Declaração Universal dos Direitos do Consumidor de Vinho” duas coisas chamaram muito minha atenção. A primeira é: “existem grandes vinhos em todas as faixas de preço” — isso é mesmo verdade? A segunda é: “Champagne em copo de plástico no carro”. Em que ocasiões é aceitável beber um grande vinho em um copo de plástico?
Quando você é jovem, beber Calimocho (vinho tinto de 1 dólar o litro misturado com Coca-Cola) em um parque com os amigos numa sexta-feira à noite é tão perfeito quanto uma taça caríssima de Borgonha com vieiras em um restaurante três estrelas Michelin. Existem vinhos para diferentes situações — e eles começam a 1 dólar. Acredito na frase “na vitória, você merece Champagne; na derrota, você precisa dele.” Já abri Champagnes caros e bebi em copo de papel em um estacionamento para marcar momentos extremos, tanto de vitória quanto de derrota. Champagne tem um significado que vai além de sabores e aromas — e, às vezes, esse significado é a parte mais importante. Nos primeiros meses da pandemia de Covid-19, fomos obrigados a fechar a Rosé Mansion, nosso enorme parque de diversões cor-de-rosa dedicado ao vinho, em Nova York. Estávamos tristes e todos os restaurantes estavam fechados, então todas as noites eu comprava algumas garrafas caras de Champagne e bebíamos sentados nos degraus da biblioteca pública, comendo pizza. Nunca vou esquecer aqueles dias — e o Champagne foi parte fundamental disso.
Você diz no livro que estamos vivendo a “Era de Ouro Global do Vinho”. Pode explicar melhor?
Não podemos esquecer que, há 100 anos, era difícil encontrar um vinho que pudesse envelhecer em garrafa de vidro. Durante a maior parte da história da humanidade, o vinho simplesmente não tinha um sabor muito bom. Computadores e a internet revolucionaram a forma como produzimos e transportamos vinho pelo mundo. Eles aceleraram a ciência de maneira exponencial. Até cerca de 20 anos atrás, a qualidade do vinho era extremamente inconsistente. A variação entre safras — e até entre garrafas — tinha um impacto enorme. Os enólogos precisavam adivinhar o que estava acontecendo com seus vinhos e até que uvas estavam cultivando. Produzimos vinho há 9.000 anos, mas só em 1999 começamos a usar testes de DNA para identificar com precisão as variedades de uva. Isso foi há apenas 26 anos. Análises laboratoriais que antes levavam meses e exigiam equipamentos do tamanho de uma casa hoje podem ser feitas com máquinas acessíveis — ou até com um acessório para iPhone. Nunca tivemos tantos vinhos de alta qualidade, vindos de tantos lugares diferentes do mundo.
“Sushi, tatuagens e Pinot Noir são coisas com as quais não se deve economizar.” Eu adorei essa frase! Quais são as melhores opções de bom custo-benefício para quem busca vinhos acessíveis?
Quando procuro vinhos acessíveis, sempre olho para regiões emergentes — lugares excelentes para produzir vinho, mas que ainda não têm prestígio. Pulo Napa Valley e grande parte da França. Em vez disso, busco regiões menos conhecidas de Portugal, Europa Oriental, Chile ou Brasil.
Um homem explicando que tipo de vinho uma mulher deveria gostar é sexismo, não hospitalidade. Essa afirmação feita no seu livro é perfeita — você poderia comentar?
Fico realmente irritada quando vejo uma mulher pedir um vinho específico que ela sabe que gosta e algum homem dizer que ela está errada. Vejo isso acontecer o tempo todo e estou cansada disso. Não há nada de errado com um Chardonnay amanteigado e com madeira, se é isso que você gosta. Ou com um Moscato doce. Já conversei com muitas mulheres que foram a uma loja de vinhos comprar um Moscato doce e o vendedor, de propósito, vendeu um vinho seco. O gênero tem um papel enorme na percepção de sabor, e os hormônios fazem o vinho ter gosto diferente. Quero dar às mulheres a informação necessária para reagirem.
Há um trecho do livro em que você faz uma ode aos vinhos doces. No Brasil, muitas pessoas gostam deles, mas têm vergonha de admitir por causa do preconceito. O que você diria a esse público preconceituoso?
Durante 9.000 anos, os vinhos doces foram os mais valorizados do mundo. Na Odisseia, de Homero, ele menciona repetidamente “os vinhos doces e fortes” (feitos de uvas Moscato). O Champagne original era duas vezes mais doce que a Coca-Cola. Tokaji era o presente que reis e rainhas trocavam entre si. Foi só nas últimas décadas que os vinhos secos se tornaram populares. Falo disso em detalhes no meu livro, na seção “A guerra da América contra o vinho doce”.
O que você diria às pessoas que não conseguem diferenciar cheiro e aroma ao beber vinho?
Há muito mais no vinho do que identificar sabores e aromas específicos. Eu consigo apreciar música mesmo sem saber tocar violão. Não sei ler partitura, nem o que é uma progressão de acordes, mas ainda assim posso amar uma música tanto quanto um músico profissional. Você não precisa aprender sabores, aromas ou técnicas de produção para apreciar vinho. Foque nas histórias das pessoas por trás dele — e a experiência se torna maravilhosa.
Quais são os principais desafios de ser uma mulher trans no mundo do vinho, tão conservador?
Sinceramente, ser uma mulher trans no mundo do vinho não é tão ruim assim. A maioria das pessoas é respeitosa, gentil e solidária. Dito isso, nada poderia ter me preparado para ser uma mulher no mundo do vinho. Antes da transição, trabalhei principalmente com mulheres e criei grandes eventos de vinho frequentados majoritariamente por mulheres. A Rosé Mansion recebeu 225 mil visitantes nos primeiros 12 meses, e 95% eram mulheres. Achei que entendia essas dificuldades, porque as vi de perto por muito tempo. Mas ser mulher na indústria do vinho é muito mais desafiador do que eu poderia imaginar. Comecei minha transição de gênero enquanto escrevia este livro. Isso envolveu terapia hormonal, que suprime a testosterona e a substitui por estrogênio e progesterona. Esses hormônios estão, aos poucos, “reprogramando” meu cérebro: a pele fica mais macia, a gordura se redistribui para áreas mais femininas, como coxas e seios, os pelos afinam, os dedos diminuem, as cores ficam mais vivas e — o mais chocante — meu olfato aumentou significativamente, assim como a sensibilidade ao amargor. Consigo sentir cheiros que antes não percebia, inclusive odores ruins, como lixo e suor corporal. É intenso. O olfato se tornou muito mais importante na minha vida. Passei a acender velas aromáticas, sou exigente com o detergente que uso para lavar roupas, adoro perfumes bons e a comida ficou mais saborosa. Por outro lado, eu costumava tomar café puro, sem açúcar ou leite, e agora não consigo mais. Café preto ficou extremamente amargo, como se eu estivesse bebendo uma infusão de madeira queimada e piche. Também passei a ter mais vontade de comer doces, como biscoitos e bolo. O vinho mudou. Não gosto mais de tintos secos como antes. Hoje, prefiro tintos mais suculentos, intensos, e brancos encorpados. O aroma passou a ter um papel muito maior no que me agrada. É difícil explicar, mas a experiência de beber vinho mudou profundamente. Quando estou no clima certo, no ambiente certo e com as pessoas certas, o vinho é melhor do que jamais foi antes da transição. Mas, quando não estou nesse estado, ele simplesmente não é tão interessante.
Acha que a indústria de vinhos está finalmente percebendo o erro de dar pouca atenção às mulheres?
A indústria americana do vinho está em pânico com a queda nas vendas, mas continua dizendo às mulheres que elas estão erradas sobre o que gostam. Vemos o sucesso de artistas como Beyoncé e Taylor Swift, que fazem música para mulheres, e marcas de cosméticos criadas por mulheres que hoje valem bilhões de dólares. Ainda assim, o vinho continua ignorando sua maior base de consumidores. Nos EUA, 86% dos sommeliers de restaurantes — aqueles que escolhem as cartas de vinho — são homens brancos (caucasianos), e o vinho tem um gosto muito diferente para eles. Hormônios e a origem do DNA desempenham um papel enorme na percepção de sabor. Pessoas com DNA de regiões mais quentes, como Brasil, África, América Central e partes quentes da Ásia, são muito mais sensíveis ao amargor do que pessoas de climas frios. Cientistas acreditam que isso se deve ao fato de que plantas venenosas em climas quentes tendem a ser amargas, e os humanos desenvolveram essa sensibilidade ao longo de 200 mil anos de evolução. Mulheres também são mais sensíveis — algo que vivi na prática — e a forma como seus cérebros percebem sabores e aromas pode mudar drasticamente após o parto. Nos EUA, cerca de 65% das mulheres adultas não conseguem beber vinho seco porque o consideram amargo demais. A indústria alimentícia sabe disso e fez extensas pesquisas científicas, mas a indústria do vinho ainda se recusa a reconhecer essa realidade. E, mesmo quando reconhece, se recusa a mudar o tipo de vinho que produz.