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Por que Putin quer o Donbas? Entenda o maior entrave para encerrar a guerra na Ucrânia

Enquanto delegações da Rússia, Ucrânia e Estados Unidos rumam para Abu Dhabi, onde terão nesta sexta-feira, 23, sua primeira reunião trilateral para negociar o fim da guerra no Leste Europeu, um pedaço do território ucraniano passa a atrair atenção crescente: o Donbas, uma região industrial no leste do país que foi palco de alguns dos principais combates no conflito.

Desde a invasão da Ucrânia em 2022, as forças russas passaram a controlar a maior parte desta área (cerca de 90%), embora não tenha conseguido avançar mais. Poucos meses após o conflito começar, Moscou realizou eleições em quatro territórios ucranianos, pleitos considerados ilegítimos pela comunidade internacional, que em seguida declarou anexados — dois deles, Luhansk Donetsk, formam o Donbas. O primeiro foi completamente ocupado, mas a Ucrânia ainda domina partes do segundo ao redor das cidades de Sloviansk e Khamatorsk.

(Os outros dois anexados, Zaporizhzhia e Kherson, são 75% controlados pela Rússia).

O presidente Vladimir Putin colocou como condição inabalável para qualquer acordo de paz a concessão total do Donbas à Rússia. Para os ucranianos, isso seria um golpe duro e, na prática, uma hipócrita recompensa ao Estado agressor que iniciou o conflito. O líder da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou reiteradamente que ceder terras a Moscou é uma “linha vermelha” — embora tenha soado menos firme antes da reunião em Abu Dhabi nesta sexta. “O Donbas é uma questão fundamental que será discutida da maneira que as três partes considerarem adequada”, afirmou.

Por que a Rússia quer o Donbas?

Um dos fatores por trás da exigência de Putin é que a região, apesar de ter enfraquecido ao longo da Guerra Fria, tem resquícios de sua era altamente industrializada em meados do século XX, seu subsolo está repleto de riquezas minerais e suas terras estão entre as mais agricultáveis do mundo.

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Um segundo fator é o valor estratégico da região. Plantado lá, o porto de Mariupol dá acesso ao Mar Negro — importante ponto de escoamento de mercadorias devido ao acesso ao Mediterrâneo (pelo Estreito de Bósforo ou o Estreito de Dardanelos), bem como para o posicionamento de ativos navais, que ficariam ainda mais perto do Ocidente.

Talvez o fator mais importante para a Rússia, no entanto, seja o fato da região ser russófona e abrigar muitos imigrantes da era soviética. Quando lançou a guerra, Putin sustentou que os falantes de russo na Ucrânia eram discriminados e fez de sua missão autoimposta “libertá-los” e reunificar o que chama de “mundo russo”.

O chefe do Kremlin sonha em reeditar o fausto dos tempos dos czares e o poderio da antiga União Soviética, pretendendo engolir os países que orbitam em torno de Moscou. Donbas, que teve importante papel na mitologia socialista como lar do arquétipo do “homem soviético”, é central também do ponto de vista simbólico na narrativa de Putin sobre os motivos da guerra.

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A Rússia tem direito sobre Donbas?

A Rússia argumenta que a Ucrânia fez parte da “Grande Rússia” por 500 anos. No entanto, esse período terminou em 1994, quando Rússia, Ucrânia, Estados Unidos e Reino Unido assinaram o Memorando de Budapeste.

O acordo ofereceu garantias de segurança aos ucranianos, proibindo Moscou, Washington e Londres de ameaçar, usar força militar ou coerção econômica contra a nação. Em contrapartida, Kiev se comprometeu a abrir mão de suas armas nucleares, cedendo-as ao Kremlin.

Especialistas afirmam que a Ucrânia cumpriu sua parte no acordo, mas a Rússia o violou em 2014, quando anexou a Crimeia.

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Moscou também argumenta que os falantes de russo da região querem fazer parte da Rússia, embora não haja dados que sustentem a alegação.

“Muitos ucranianos no leste da Ucrânia, incluindo ucranianos étnicos, falam ou falavam russo como primeira língua”, disse à emissora Al Jazeera Steven Pifer, ex-embaixador americano em Kiev. “Um deles é Volodymyr Zelensky.”

Abrir mão do Donbas é uma opção para a Ucrânia?

A posição do governo ucraniano tem firme em sustentar que não cederá o Donbas, algo com o que a maioria da população do país concorda. No entanto, o cenário no campo de batalha dá margem de manobra à Rússia.

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Zelensky tem apelado por um cessar-fogo e o “congelamento” das linhas de frente como estão, descartando por ora a concessão de territórios porque, entre outras coisas, isso seria inconstitucional. Apesar disso, sugeriu estar disposto a colocar a questão sob consulta popular (um referendo poderia mudar a Constituição, embora a chancela do povo seja improvável.

Além disso, o congelamento das linhas de frente efetivamente significaria a continuidade do controle russo sobre as áreas do Donbas que já controla, mesmo que Kiev não abra mão de sua reivindicação formal. Ou seja, os ucranianos podem aceitar um acordo em que não cedam a soberania, mas aceitem a realidade “on the ground”, no terreno.

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