Representantes de Rússia, Ucrânia e Estados Unidos realizarão uma reunião trilateral em Abu Dhabi nesta sexta-feira, 23, para discutir a complexa questão territorial do conflito. Este será o primeiro encontro conjunto entre as nações, que até agora só haviam negociado em caráter bilateral, em um novo impulso para encerrar a guerra que completará quatro anos daqui um mês.
A reunião trilateral foi anunciada após o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, conversar com seu homólogo americano, Donald Trump, às margens do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Em paralelo, o presidente russo, Vladimir Putin, recebeu em Moscou o enviado americano Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner.
“Ficou acordado que a primeira reunião de um grupo de trabalho trilateral sobre questões de segurança ocorrerá em Abu Dhabi a partir de hoje”, disse o assessor diplomático do Kremlin, Yuri Ushakov, a jornalistas. A delegação russa, chefiada pelo general Igor Kostiukov, oficial superior do Estado-Maior, “viajará para Abu Dhabi nas próximas horas”, acrescentou ele.
A Ucrânia será representada pelo secretário do Conselho de Segurança, Rustem Umerov; pelo chefe do gabinete presidencial, Kirill Budanov; pelo seu vice, Sergi Kislitsya; pelo líder do partido presidencial, David Arakhamia; e pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Andrii Gnatov.
“O Donbass é uma questão fundamental. Será discutida da maneira que as três partes considerarem adequada” em Abu Dhabi, declarou Zelensky em coletiva de imprensa.
A Rússia, que controla cerca de 20% do território ucraniano, exige a retirada completa das tropas ucranianas da região do Donbass, no leste do país. Exige também que Kiev se comprometa a não aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
O russo Ushakov enfatizou que a reunião de quinta-feira em Moscou entre Putin e Witkoff foi “útil em todos os sentidos”, particularmente por viabilizar o encontro trilateral.
“Os americanos se empenharam muito na preparação para esta reunião e esperam que ela seja um sucesso e abra caminhos para avançar em todas as questões relacionadas ao fim do conflito” na Ucrânia, observou Ushakov.
Garantias de segurança
Outra reunião, dedicada a questões econômicas, também ocorrerá nesta sexta-feira em Abu Dhabi entre Witkoff e o enviado do Kremlin para assuntos econômicos internacionais, Kirill Dmitriev.
“Estamos sinceramente interessados em uma solução para o conflito por meios políticos e diplomáticos”, afirmou Ushakov. Porém, “até que isso aconteça, a Rússia continuará alcançando seus objetivos no campo de batalha”, ele frisou.
Steve Witkoff, acompanhado de Kushner, conversou com Putin por mais de três horas e meia. O enviado já havia se reunido com o presidente russo em diversas ocasiões no ano passado, como parte dos esforços dos Estados Unidos para encerrar o conflito.
No Fórum de Davos, o presidente ucraniano teve uma breve reunião com Trump na quinta-feira e descreveu o encontro como “positivo”, embora tenha reconhecido que o diálogo foi “complexo”. Ainda assim, ele afirmou ter chegado a um acordo sobre as garantias de segurança que os Estados Unidos devem oferecer à Ucrânia para dissuadir a Rússia de atacar novamente após um eventual fim do conflito.
“As garantias de segurança estão prontas”, afirmou, acrescentando que “o documento precisa ser assinado pelas partes, pelos presidentes, e então seguirá para os parlamentos nacionais”.
Nos últimos meses, Moscou intensificou os ataques contra a rede energética ucraniana, causando apagões massivos e cortes no fornecimento de energia e calefação, especialmente na capital, em pleno inverno e temperaturas polares. Em Davos, Zelensky voltou a cobrar os aliados europeus por mais assistência de defesa, além de repetir que Putin precisa ser pressionado a fazer concessões — Moscou não parece ter movido um milímetro de suas exigências maximalistas.