Tudo parece tão perfeito no Japão que soa absurdo pensar que o país precisa ser “salvo”. Mas é exatamente esse o papel da primeira-ministra Sanae Takaichi. Ela tem missões estonteantes como recarregar a pilha da economia estagnada, enfrentar a sombra avassaladora e ameaçadora da China e até abrandar o maior risco sistêmico ao país, o do encolhimento populacional.
Obviamente, não pode fazer isso tudo – ninguém pode. Mas a forma como está tentando lhe valeu até 80% de aprovação, o que a coloca no topo do mundo democrático, acima da mexicana Claudia Sheinbaum, politicamente sua antípoda.
A primeira-ministra é de direita e não tenta disfarçar isso, embora entenda que governa para todos os japoneses. Buscando, justamente, um mandato direto das urnas, já que se tornou primeira-ministra ao ser eleita líder do Partido Liberal Democrata, ela convocou eleições para o próximo dia 8. É um recurso válido na política dos sistemas parlamentaristas: quando o líder está forte, busca usar essa popularidade para ganhar mais congressistas e facilitar a aprovação de suas políticas.
Ao contrário de Sanae Takaichi, o partido tem um desempenho fraco, resultado de muitos anos de desgaste e da sensação de que os problemas de fundo se acumulam, fora as reclamações sobre o custo de vida, um problema simplesmente universal.
ESTOICISMO NIPÔNICO
Ao contrário do partido, a primeira-ministra demonstra espírito de luta. Assim que assumiu, disse que uma invasão chinesa de Taiwan criaria um problema existencial para o Japão por envolver vias marítimas vitais ao abastecimento de energia e alimentos ao país, dando a entender que haveria uma ajuda aos vizinhos assediados. A China reagiu com mão pesada, todas as viagens de turistas chineses à ilha foram canceladas e pareceu ter sido criada a imagem de imprudência da nova chefe de governo num assunto tão sério.
Na realidade, os japoneses adoraram. Talvez estivessem se sentindo humilhados pelas sucessivas manifestações de poder da China, recebidas com nipônico estoicismo. Parte da popularidade da primeira-ministra decorre justamente da ideia de que essa mulher pequena e frágil, de bem conservados 64 anos, tem alma de dragão.
Como é obrigatório na política japonesa, ela usa invariavelmente tailleur e colarzinho de pérola, mas talvez o passado de baterista de um conjunto de heavy metal fale mais alto.
Takaishi pareceria mais simpática ao mundo exterior se abrandasse opiniões, mas mantém a oposição ao casamento homossexual, à manutenção do sobrenome de solteira para mulheres casadas e a abertura para a sucessão no trono imperial a herdeiras femininas (pelo sistema sálico atual, a monarquia depende de um único herdeiro direto, sobrinho do atual imperador, um reflexo do encolhimento populacional que afeta o país inteiro).
A direita no Japão também tende a ter uma visão revisionista do passado histórico recente, quando o imperialismo japonês causou inúmeros sofrimentos e abusos a vizinhos invadidos e considerados inferiores. Isso inclui as mulheres coreanas escravizadas sexualmente em bordéis que serviam os soldados das forças imperiais e as múltiplas atrocidades praticadas nas partes da China dominadas e ocupadas. Sem falar nas abominações infligidas a prisioneiros de guerra britânicos, australianos e americanos.
As relações entre a China e o Japão precisam ser consideradas à luz dos acontecimentos históricos que ajudam a entender o sentimento de revanche alimentado pela ascensão do império vermelho, um país humilhado que se tornou potência mundial, aspirando ao lugar número 1.
ORIGEM HUMILDE
A primeira-ministra comprou briga com a China, mas se mostrou afável e humana com uma alma gêmea, a italiana Giorgia Meloni, que também é a primeira mulher a governar seu país e, claro, de direita. Presenteou-a há duas semanas com uma cesta de produtos Hello Kitty, direcionados à filha da primeira-ministra italiana, e com um bolo de aniversário. Claro que o encontro acabou numa versão anime das duas, que compartilham também a origem humilde – Giorgia Meloni criada sozinha pela mãe; Sanae Takaishi filha de uma funcionária da polícia e um empregado de uma fábrica de autopeças.
Os japoneses costumam esquadrinhar o pedigree familiar dos políticos, muitas vezes favorecendo origens mais requintadas, um reflexo do sistema altamente hierarquizado do país onde milímetros de diferença na saudação com o corpo curvado já resumem o status social do interlocutor.
A eleição geral será no próximo dia 8 de fevereiro, dando assim apenas duas semanas de campanha, e a primeira-ministra está apostando que conseguirá aumentar a mísera maioria do PLD, atualmente de um único deputado. Ontem, dissolveu o Parlamento para abrir o período eleitoral. Se sua popularidade escoar na direção de candidatos do partido, ela terá força para emplacar políticas e enfrentar os desafios de deixar qualquer metaleiro em crise de ansiedade. Até agora, não demonstrou sinais de que está intimidada pelo tamanho deles, embora provavelmente saiba que a briga ainda nem começou.