Os Estados Unidos revelaram nesta quinta-feira, 22, um plano para transformar a Faixa de Gaza em um complexo moderno de arranha-céus à beira-mar em um prazo de até três anos. A proposta foi apresentada pelo presidente americano, Donald Trump, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, como parte da criação de um chamado “conselho de paz” para o Oriente Médio.
“Vamos ter muito sucesso em Gaza. Vai ser algo grandioso”, afirmou Trump ao anunciar a iniciativa, que, segundo ele, poderia transformar o território devastado por dois anos de guerra em um polo de prosperidade econômica.
Embora o conselho tenha sido apresentado oficialmente como um órgão para supervisionar a reconstrução da região, a proposta vai além e ambiciona atuar na resolução de conflitos globais, em um movimento que rivaliza diretamente com o papel tradicional da ONU. Durante sua fala, Trump destacou a localização estratégica da Faixa de Gaza e fez paralelos com grandes projetos imobiliários.
“Olhem essa localização à beira-mar. Olhem essa bela propriedade. Imaginem o que isso pode significar para tanta gente”, disse ele.
O plano foi detalhado por Jared Kushner, genro de Trump e um dos enviados americanos nas negociações do cessar-fogo em Gaza. Mesmo sem ocupar cargo formal no governo, Kushner apresentou um “plano-mestre” que prevê a construção de dezenas de torres residenciais com terraços, áreas verdes e infraestrutura moderna. Segundo ele, cidades capazes de abrigar entre dois e três milhões de pessoas podem ser erguidas em até três anos no Oriente Médio.
Kushner estimou que o projeto exigirá investimentos mínimos de 25 bilhões de dólares (cerca de 132 bilhões de reais) para reconstruir a infraestrutura básica e os serviços públicos destruídos desde o início da guerra, em 7 de outubro de 2023. As projeções do governo americano apontou que, em dez anos, o Produto Interno Bruto (PIB) de Gaza poderia alcançar 10 bilhões de dólares, com renda média anual de 13 mil dólares por família, sustentada por “emprego pleno” e novas oportunidades econômicas.
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Gaza devastada
A proposta, no entanto, surge em meio a um cenário humanitário dramático. Um alto funcionário da ONU alertou recentemente que a população de Gaza vive em condições “desumanas”, apesar da trégua apoiada pelos EUA estar entrando em sua segunda fase. Bairros inteiros foram destruídos, ao passo que hospitais e escolas seguem gravemente danificados. Em meio à terra arrasada, centenas de milhares de pessoas vivem em abrigos improvisados.
Kushner reconheceu que, historicamente, cerca de 85% da economia de Gaza dependeu de ajuda internacional, o que classificou como “insustentável”. Ele também argumentou que o desarmamento total do Hamas, previsto no acordo de cessar-fogo, seria decisivo para atrair empresas privadas e doadores internacionais ao território. O grupo, contudo, rejeita entregar as armas até a criação do Estado da Palestina — uma ideia recusada por Israel.
Enquanto isso, especialistas da ONU que investigam possíveis violações de direitos humanos em Israel e nos territórios palestinos acompanham o anúncio do Conselho de Paz. A Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU, criada em 2021, acusa Israel de atos que podem configurar genocídio em Gaza, mas teve seu acesso ao território bloqueado pelo governo de Benjamin Netanyahu.