Há encontros que definitivamente definem uma época. Madonna e os estilistas Domenico Dolce e Stefano Gabbana é um deles. Uma relação que atravessa mais de 40 anos, costurada por afinidades estéticas, provocações e uma compreensão quase instintiva do poder da imagem. Não é exagero dizer que essa história ajudou a moldar tanto a trajetória da cantora quanto a identidade da maison italiana — sempre ancorada em sensualidade, drama e uma certa irreverência, digamos, mediterrânea.
“Domenico e Stefano são como irmãos para mim. Temos uma história muito longa juntos”, disse Madonna, ao relembrar os primeiros contatos com a marca. Um deles ficou gravado na memória: pouco depois de dar a luz Lola, vestiu um Dolce & Gabbana pela primeira vez. “A cintura estava marcada, os seios à mostra, e eu me senti confiante”, completou. A frase resume bem o que a grife sempre ofereceu à artista — e às mulheres que se reconhecem nela: poder, segurança e uma sexualidade assumida, sem pedidos de licença ou de desculpa.
Essa sintonia se traduziu em momentos emblemáticos. Madonna já foi musa de campanhas, inspirou coleções inteiras e vestiu figurinos que entraram para a história da moda pop. Agora, pela primeira vez, o trio sela essa parceria no universo da perfumaria, com a cantora como rosto de The One, fragrância intensa, ambarada e floral, que carrega o DNA inconfundível da casa.
“Somos atraídos pela ideia de ultrapassar limites e desafiar normas sociais”, afirmou Madonna. Não por acaso, essa colaboração sempre se manifestou em imagens de forte impacto cultural: editoriais icônicos fotografados por Steven Klein, turnês globais com figurinos assinados pela marca e uma estética que flerta com o sagrado e o profano — terreno onde todos eles se sentem em casa.
Para Stefano Gabbana, o encantamento permanece intacto. “Ainda sinto borboletas no estômago quando a vejo”, confessou. Ele volta a 1984, quando tinha apenas 20 anos e assistiu a Madonna se apresentar na Itália, em plena era “Blonde Ambition”, usando o lendário sutiã de cones de Jean Paul Gaultier. “Eu disse ao Domenico: ‘Você acha que um dia essa garota usaria algo nosso?’” Meses depois, ao vê-la em um jornal, em Paris, vestindo uma saia de jersey e uma blusa de rede da dupla, ele diz ter literalmente desabado. A partir dali a história ganhou corpo.
Ela vestiu uma guêpière bordada da marca na estreia do documentário “Na Cama Com Madonna”. Em 1993, Dolce & Gabbana criaram mais de 1.500 figurinos para ela e seus bailarinos para a turnê “The Girlie Show”, primeira da estrela a passar pelo Brasil. “As pessoas começaram a conhecer Dolce & Gabbana por causa da Madonna”, admitiu Gabbana. Em setembro de 2024, a dupla dedicou uma coleção inteira à popstar, com direito a perucas loiras e cacheadas que remetiam à icônica “Blonde Ambition” e a própria estrela, sentada na primeira fila coberta por um véu preto.
Nova narrativa de uma história antiga
O novo capítulo dessa narrativa entre Madonna e Dolce&Gabanna vem com ares cinematográficos. O filme da campanha, dirigido por Mert Alas, presta homenagem à cantora italiana Patty Pravo. Madonna interpreta La Bambola, sucesso de 1968, cantando inteiramente em italiano. A escolha não foi casual: a letra fala de uma mulher cansada de ser tratada como descartável, que exige respeito e rejeita a objetificação.
Na tela, ela aparece soberana, deitada em uma cama em meio a uma noite italiana tempestuosa, enquanto o ator Alberto Guerra orbita ao seu redor. “Ela tem o controle”, resume Gabbana. “É um gênio. O rosto perfeito para a fragrância.”
Madonna, que nunca se declarou seguidora de tendências — afinal, costuma criá-las —, diz ser fascinada pela beleza das mulheres italianas. Para ela, o charme está na confiança, na independência e no estilo aparentemente sem esforço. Elementos que também definem sua própria imagem e explicam por que essa parceria soa tão orgânica.
“É divertido, sexy, faz você querer saber como todo mundo cheira”, brinca Gabbana. Assim, The One funciona como um novo símbolo dessa relação intensa. Um lembrete de que, quando moda e música se encontram com autenticidade, o resultado não envelhece, mas sim vira história.
Veja o vídeo completo de The One, com Madonna: