Os dois últimos pandas gigantes do Japão irão retornar antecipadamente à China, em um claro sinal da deterioração das relações diplomáticas entre as nações asiáticas. A devolução dos animais foi anunciada pelo Governo Metropolitano de Tóquio em dezembro e ocorrerá na próxima terça-feira, 27. Essa será a primeira vez em meio século que a terra do sol nascente ficará sem ursos pandas, que têm sido um importante símbolo das relações sino-japonesas.
Xiao Xiao e sua irmã gêmea, Lei Lei, nasceram no zoológico de Ueno, na capital japonesa, em junho de 2021. Eles são os mais recentes rebentos da “diplomacia dos pandas” promovida pela China em território japonês. Originalmente, os animais voltariam à guarda de Pequim em fevereiro, mas a administração local fechou um acordo com a Associação Chinesa de Conservação da Vida Selvagem para um retorno antecipado.
De acordo com a emissora nipônica NHK, o anúncio da devolução dos animais atraiu uma multidão ao zoológico de Ueno, onde eles ficarão em exibição até o domingo, 25. As visitas gratuitas foram suspensas, e os interessados em ter um vislumbre dos gêmeos têm que fazer um agendamento com antecedência para participar de um sorteio e tentar adquirir um ingresso.
A prefeitura de Tóquio afirma que as passagens por cada área de exposição devem durar cerca de um minuto, e o jornal Asahi Shimbum informou que visitantes têm aguardado até seis horas para ver Lei Lei e Xiao Xiao pela última vez. Uma vez devolvidos a Pequim, os pandas serão submetidos a quarentena, antes de irem a um centro de conservação em Sichuan, no sudoeste do país.
Diplomacia dos pandas
O envio de pandas ao Japão tem sido uma marca das relações entre Tóquio e Pequim desde a década de 70. Foi através dessa parceria que Xiao Xiao e Lei Lei nasceram em terras nipônicas. Os pais da dupla, Shin Shin e Ri Ri, foram emprestados por Pequim em 2011, retornando à Ásia continental em 2024. Além dos gêmeos, o casal teve outro filhote, Xiang Xiang, que nasceu em 2017 e foi enviado para a China em 2023.
A prática teve início em 1972, quando dois animais chegaram ao território nipônico para comemorar a normalização da diplomacia entre as nações. Essa se tornou uma tradição comum, e um total de 30 pandas gigantes viveram no Japão desde então, boa parte deles nascidos no país. Em um determinado momento, a nação insular chegou a ser o lar de nove ursos do gênero, sendo o maior número já registrado em qualquer país fora da China.
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Segundo especialistas, Pequim utiliza a “diplomacia dos pandas” como uma estratégia para suavizar e promover relações com nações amigas. O governo chinês costuma emprestar temporariamente os animais a zoológicos no exterior em um sinal de boa-fé, normalmente com termos comerciais e data de retorno estipulada. Por outro lado, os pandas também são usados para expressar sinais de insatisfação, com pedidos de retorno sendo um sinal claro disso.
Autoridades japonesas tentaram negociar o envio de novos pandas junto à China, mas não houve avanço nos diálogos, uma vez que os dois países vivem uma crise diplomática há cerca de dois meses. Tudo começou no dia 7 de novembro, quando a premiê do Japão, Sanae Takaichi, disse ao parlamento que um ataque a Taiwan pelo exército chinês pode constituir um “cenário de risco de sobrevivência”, sugerindo uma possível intervenção militar de seu país como resposta.
Pequim enxerga Taiwan como parte integral da China, e os comentários de Takaichi geraram uma profunda insatisfação. Como resposta, o governo chinês suspendeu as importações de frutos do mar japoneses, proibiu a exportação de bens de uso duplo para a indústria de defesa nipônica, cortou intercâmbios culturais e aconselhou seus cidadãos a não viajarem para o país.