Cerca de metade de todo o dióxido de carbono lançado na atmosfera em 2024 teve origem em apenas 32 empresas produtoras de combustíveis fósseis, segundo um novo levantamento internacional. O dado reforça a ideia de que a crise climática não é resultado difuso do consumo global, mas está cada vez mais concentrada em um grupo reduzido de grandes produtores de petróleo, gás, carvão e cimento.
O cálculo faz parte do relatório Carbon Majors, que acompanha há mais de uma década as emissões associadas às maiores companhias do setor fóssil. A edição mais recente do estudo revela que 17 das 20 empresas que mais poluem no mundo são estatais, controladas por governos que, em sua maioria, se opuseram recentemente a propostas para acelerar o abandono dos combustíveis fósseis.
Estatais lideram ranking global de poluição
Entre as maiores emissoras está a Saudi Aramco, responsável sozinha por 1,7 bilhão de toneladas de CO₂ em 2024, volume comparável ao de países inteiros. Se fosse uma nação, a empresa saudita figuraria como o quinto maior emissor do planeta, atrás apenas de potências como China, Estados Unidos, Índia e Rússia.
Entre as companhias privadas, a maior emissora é a americana ExxonMobil, cuja produção de combustíveis fósseis resultou em 610 milhões de toneladas de CO₂ no ano passado. O relatório mostra ainda que, enquanto muitas empresas controladas por investidores reduziram suas emissões, a maioria das estatais aumentou a produção e a poluição em relação ao ano anterior.
Segundo os autores do estudo, essa concentração crescente das emissões em empresas ligadas a governos cria barreiras políticas adicionais para o enfrentamento do aquecimento global, já que decisões econômicas e interesses estratégicos nacionais se misturam às negociações climáticas.
O que a política tem a ver com o bloqueio da ação climática?
O levantamento ganha peso político ao ser associado às negociações internacionais sobre o clima. Países que controlam grande parte dessas empresas estatais — como Arábia Saudita, Rússia, China, Irã, Emirados Árabes Unidos e Índia — rejeitaram uma proposta de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis durante a última conferência do clima da ONU (COP), realizada em Belém, no Brasil.
Mais de 80 países apoiaram a ideia de estabelecer uma rota clara para abandonar petróleo, gás e carvão, mas a resistência dos grandes produtores impediu que o compromisso fosse incluído no texto final da cúpula. Para analistas, o estudo ajuda a explicar por que o debate climático avança lentamente, mesmo diante do agravamento dos eventos extremos.
Como os dados estão sendo usados para responsabilizar poluidores?
Além de mapear as emissões atuais, a base Carbon Majors reúne dados históricos desde 1845 e aponta que 178 produtores industriais foram responsáveis por cerca de 70% de todo o CO₂ emitido pelo setor fóssil ao longo desse período. Um terço dessas emissões históricas pode ser atribuído a apenas 22 empresas.
Essas informações vêm sendo usadas não só em estudos científicos, inclusive pesquisas que relacionam grandes emissoras a ondas de calor extremas, como também em ações judiciais e leis climáticas, que buscam responsabilizar empresas por danos causados pelo aquecimento global, como enchentes, secas e temperaturas recordes.
Para especialistas, o avanço desse tipo de base de dados transforma números abstratos em instrumentos concretos de cobrança, ao conectar diretamente a produção de combustíveis fósseis aos impactos climáticos já sentidos por populações em diferentes partes do mundo.