Mais de meio século depois da missão Apollo 11, que levou os primeiros humanos à Lua em 1969, o satélite natural da Terra voltou ao centro da geopolítica global. Estados Unidos e China aceleraram seus programas espaciais e trabalham com cronogramas que apontam para um pouso tripulado até 2030, reacendendo uma disputa que lembra a corrida espacial da Guerra Fria, mas agora com objetivos mais amplos e duradouros.
Diferentemente do passado, quando a meta era chegar primeiro e fincar uma bandeira, a nova corrida lunar envolve presença prolongada, exploração científica, infraestrutura e definição de normas internacionais para o uso de recursos fora da Terra.
O que os Estados Unidos pretendem fazer na Lua?
O programa americano é liderado pela Nasa, por meio da iniciativa Artemis, que prevê o retorno de astronautas à superfície lunar. A missão Artemis III, prevista para a segunda metade da década, deve marcar a primeira caminhada humana na Lua desde 1972 e a primeira com uma mulher na tripulação.
Além do pouso em si, os Estados Unidos planejam testar tecnologias para uma presença sustentável, incluindo sistemas de geração de energia, habitats, extração de recursos locais e logística para missões frequentes. A Lua é vista como um campo de testes para viagens mais longas, especialmente para futuras missões humanas a Marte.
O cronograma americano, no entanto, enfrenta desafios. Atrasos técnicos, custos elevados e a dependência de parceiros comerciais, como a SpaceX, geram incertezas sobre a data exata do retorno tripulado.
Como a China avança rumo a um pouso tripulado até 2030?
Do outro lado, a China segue uma estratégia mais gradual e centralizada, comandada pela China National Space Administration. Autoridades chinesas afirmam que o país está “no caminho certo” para levar astronautas à Lua até 2030, com o desenvolvimento do foguete Long March 10, de novos trajes espaciais e de um módulo de pouso lunar próprio.
Nos últimos anos, o programa chinês acumulou conquistas importantes. Em 2024, a missão Chang’e-6 trouxe à Terra as primeiras amostras já coletadas do lado oculto da Lua, um feito inédito até então. Paralelamente, a China construiu sua própria estação espacial, a Tiangong, e mantém missões tripuladas regulares em órbita da Terra.
A estratégia chinesa prioriza exploração robótica, avaliação de recursos lunares e construção de infraestrutura, com vistas a uma base permanente no futuro.
Por que a disputa vai além da ciência?
Assim como na Guerra Fria, esta corrida lunar não é apenas científica, mas também política e estratégica. Quem chegar primeiro e, sobretudo, quem conseguir permanecer, pode influenciar as regras sobre mineração, uso de recursos e operações no espaço.
Autoridades americanas já expressaram preocupação de que um avanço chinês mais rápido permita a Pequim ditar normas futuras para a exploração lunar, algo comparável ao papel desempenhado pelos Estados Unidos no início da era espacial.
Ao mesmo tempo, analistas observam que a China tem conseguido manter cronogramas mais estáveis, menos sujeitos a mudanças políticas internas, o que aumenta a pressão sobre o programa americano.
Quais são os principais obstáculos para chegar lá?
Apesar do entusiasmo, os desafios são significativos. Missões de longa duração expõem astronautas à radiação cósmica, à perda de massa óssea e muscular e a condições extremas de isolamento. Há ainda dificuldades técnicas relacionadas à construção de estruturas na superfície lunar, ao fornecimento de energia e ao uso de recursos disponíveis no próprio satélite.
Além disso, os custos seguem elevados. Manter operações regulares fora da Terra exige investimentos contínuos e cooperação entre governos, agências e empresas privadas.
Para os dois países, tudo está em jogo. A nova corrida à Lua pode definir os rumos da exploração espacial nas próximas décadas. A Lua é vista como um passo intermediário essencial para a expansão da presença humana no espaço e para o desenvolvimento de tecnologias que poderão ser usadas tanto em órbita quanto em missões mais distantes.