A Copa do Mundo de 2026 sediada no México, Canadá e Estados Unidos não está imune aos estilhaços políticos do governo de Donald Trump. Em resposta às ambições do presidente americano sobre a Groenlândia, ilha vinculada à Dinamarca, países europeus discutem um possível boicote ao torneio. A medida já foi tomada por outras seleções na história dos mundiais, também movidas por razões políticas.
O parlamentar alemão Jürgen Hardt, da União Democrata Cristã (CDU) sugeriu o boicote como “último recurso para fazer Trump cair em si na questão da Groenlândia”.
No Reino Unido, parlamentares de diferentes siglas demonstraram apoio à medida. O conservador Simon Hoare afirmou: “Devemos enviar o máximo de mensagens possível ao governo Trump e ao povo americano de que existem certas linhas vermelhas em relação à preservação da soberania e dos assuntos internacionais.”
A opositora Kate Osbourne seguiu na mesma linha: No ano passado, houve grande apoio público à campanha bem-sucedida para que Trump não discursasse no Parlamento. Precisamos ver o mesmo agora em relação à Copa do Mundo. Os EUA não deveriam poder participar muito menos fazer parte da organização do torneio.”
Relembre os boicotes à Copa do Mundo:
1930 – 1934: Grã-Bretanha
Os britânicos se ausentaram das duas primeiras edições da Copa do Mundo por considerarem o campeonato local entre seus países (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) melhor do que os torneios organizados pela Fifa.
A Grã-Bretanha apenas se juntou a entidade internacional em 1946 e boicotou diversos campeonatos da Fifa neste período.
1934: Uruguai (sede: Itália)
Os primeiros campeões do mundo também foram os primeiros a boicotar uma Copa do Mundo. Em casa, o Uruguai venceu o título mundial em 1930, mas em protesto às poucas seleções europeias que viajaram ao país sul-americano naquele ano, respondeu na mesma moeda na edição seguinte.
A Celeste se recusou a cruzar o Atlântico e defender seu título na Itália em 1934, tornando-se também a primeira, e até hoje única, campeã a não defender seu título.
1938: Uruguai e Argentina (sede: França)
Na mesma linha de 34, o Uruguai ganhou o apoio da vizinha Argentina no boicote à próxima edição do mundial.
Havia expectativa da Federação Argentina de sediar o torneio em uma alternância entre o Velho Continente e a América do Sul como sedes. No entanto, a França foi nomeada para receber a Copa e os hermanos se juntaram à Celeste.
1950 – Índia (sede: Brasil)
De volta ao continente sul-americano, surgiu uma lenda sobre o boicote da Índia ao torneio no Brasil: eles teriam negado participar por serem proibidos de jogar descalços.
A seleção tinha competido sem qualquer tipo de sapato nas Olimpíadas de Londres dois anos antes, momento de orgulho nacional que marcou a primeira vez do país independente em uma competição internacional.
Para a Copa do Mundo no Brasil em 1950, a Índia foi convidada junto da Indonésia, Filipinas e Birmânia (atual Myanmar) para disputar a única vaga destinada ao continente asiático para o mundial. No entanto, as outras três nações desistiram, e os indianos herdaram automaticamente a chance de jogar o campeonato. Porém, o país também desistiu.
Apesar da Fifa ter impedido que os atletas jogassem descalços, uma investigação do jornal LA Times esclareceu que autoridades locais acreditavam que a Copa do Mundo não era importante o suficiente.
Sem representantes asiáticos, a Escócia herdou a vaga, mas só iria participar do mundial se vencesse o campeonato britânico. Ao serem derrotados pela Inglaterra, os escoceses se recusaram a participar, deixando o chaveamento da competição com um número ímpar de 13 seleções.
1958 – Turquia, Indonésia, Egito e Sudão (eliminatórias contra Israel)
Antes mesmo da Copa do Mundo de 1958, questões políticas diminuíram a lista de concorrentes ao título. Israel tinha se classificado como representante asiático nas eliminatórias e precisava enfrentar países de ambas confederações asiática e africana rumo ao mundial.
No entanto, seus então adversários, Turquia, Indonésia, Egito e Sudão se recusaram a jogar contra a seleção por motivações políticas. Israel conquistou a vaga da Ásia e da África sem ter chutado uma bola.
A Fifa, porém, tinha regras que proibiam a participação de um time, com exceção do país-sede, sem ter jogado uma partida. Então, Israel enfrentou o melhor time europeu não classificado nas Eliminatórias: o País de Gales.
A seleção europeia venceu o confronto e foi à Copa.
1966 – África (sede: Inglaterra)
O maior boicote a Copa do Mundo foi realizado por um continente inteiro. A situação da África com a Fifa era diante da única vaga disponibilizada pela Fifa, a ser disputada pelo continente com a Ásia e a Oceânia. As outras vagas eram distribuídas entre Europa, com dez, América do Sul, com quatro e uma para América Central e Caribe.
A situação da Fifa com a Confederação Africana de Futebol (CAF) também estava complicada por conta da suspensão da África do Sul por parte da CAF devido ao Apartheid. Mas, antes do início das eliminatórias, a entidade máxima do futebol recolocou o país segregado no grupo da Ásia.
Em outubro de 1964, todas as 15 seleções africanas na época abriram mão brigar por uma vaga na Copa do Mundo. Entre elas, a Gana, bicampeã da África em 1963 e 1965. Seu grande astro na época e do futebol ganês, Osei Kofi vivia seu auge, porém, nunca participou de um mundial.
1974 – URSS (repescagem contra o Chile)
No meio da Guerra Fria, a União Soviética boicotou um jogo contra o Chile para a Copa do Mundo de 1974. A partida entre o representante europeu e o sul-americano era válida como repescagem, mas a seleção da URSS se recusou a viajar para o país adversário e disputar a vaga.
O boicote era em protesto ao golpe de estado realizado no Chile pelo general Pinochet, que tirou o socialista Salvador Allende do poder um ano antes.
A URSS pediu à Fifa para mudar o local da partida, o que não ocorreu. O time chileno entrou em campo e marcou gol contra ninguém do outro lado do campo, antes do árbitro apitar o fim do jogo.