Toda família infeliz é infeliz à sua maneira. Mas ninguém deixa de notar as similaridades dos rachas entre as duas famílias mais conhecidas da Inglaterra: a real, na qual o rei Charles III vive a realidade de nem conhecer os próprios netos, filhos do príncipe Harry, e a dos Beckham. O racha no seio do milionário clã do ex-jogador e sua mulher, Victoria, que fez a transição de cantora cafona do grupo Spice Girls a estilista chique, atingiu níveis radicais com a extensa postagem do filho Brooklyn indicando que, no fundo, havia uma briga de teor comercial.
Os termos são arrasadores. Em resumo, ele diz que a vida toda foi controlado pela “narrativa” criada pelos pais para promover a imagem de família feliz, quantificada por postagens nas redes sociais, presença em eventos do clã e “relacionamentos inautênticos”. Ou seja, não era tratado como um filho, mas como integrante de uma empresa familiar, com deveres e obrigações. Não por acaso, membros da realeza tratam a família, na intimidade, como “A Firma”.
Segundo ele, semanas antes do seu casamento com Nicola Peltz, o ponto fulcral do racha, David e Victoria “pressionaram insistentemente e tentaram me subornar para assinar um documento desistindo dos direitos sobre meu nome, o que teria afetado a mim, a minha esposa e a nossos futuros filhos”.
Está aí um componente original, entre as acusações mais comentadas – inclusive que a mãe se jogou em cima do filho para dançar uma música planejada para ser compartilhada entre ele e Nicola, além da constante fofoca de que Victoria sabotava o relacionamento deles e, horror dos horrores, anunciou de última hora que não faria o vestido de noiva (acusação desmentida pelos registros da estilista de Nicola a respeito do ano inteiro de contatos com a Maison Valentino para discutir como seria a obra-prima que ela usou no casamento).
ROUPAS E SAPATOS
Olhar os filhos como potenciais fontes de negócios não é uma atitude incomum entre celebridades. Os mais cínicos acham até que os nomes exóticos escolhidos pelos famosos para seus rebentos já abrangem o intuito de criar marcas fortes.
Beyoncé e Jay-Z registraram os nomes de Blue Ivy e dos gêmeos Sir e Rumi. No caso da filha mais velha, que aos treze anos começou a dançar nos shows da mãe, houve briga na justiça e uma empresa de organização de casamentos chamada Blue Ivy Events ganhou.
As Kardashians e Jenners, entre outras celebridades, querem deter os direitos de faturar com proles ou pelo menos impedir que estranhos usem comercialmente os nomes de seus filhos. São registradas as crianças que Kim Kardashian teve com Kanye West: North, Saint, Chicago e Psalm. Kylie Jenner tem o direito de usar o nome da filha, Stormi Webster, para brinquedos, cosméticos e roupas.
Roupas, sapatos, vídeos de música, filmes, videogames e similares estão nos planos de Cardi B e Offset para sua filha, chamada nada menos do que Kulture Kiari Cephus.
MUDANÇA DE SOBRENOME
O príncipe Harry e a mulher, Meghan, também mexeram no nome dos filhos para aumentar seu potencial comercial. Quando nasceram, receberam os sobrenomes que seriam dos avós maternos, Mountbatten e Windsor, embora na Inglaterra as famílias reais não usem os nomes de suas dinastias. Posteriormente, o casal passou a tratar as crianças de Archie e Lilibet Sussex, o título de nobreza dado pela rainha Elizabeth II quando o neto se casou.
Seguranças e fotógrafos que vivem cercando membros da família real têm o costume de usar o título para designar a pessoa que está no centro das atenções. A princesa Diana sempre era chamada de “Wales”, ou Gales, por causa do título do marido (as mulheres os usam como cortesia; a princesa de Gales agora é Kate, mulher do príncipe William; antes, eram chamados de “Cambridge”).
Sussex é mais sucinto e representa um título de nobreza. Mais interessante, portanto, para quem tem projetos comerciais para os filhos. Quem não entende essa mentalidade comercial fica chocado, mas muitas das celebridades mencionadas chegaram ao topo unindo o talento à capacidade de captar como fazer bons negócios.
As duas grandes brigas familiares na Inglaterra, curiosamente, envolvem atrizes americanas: Meghan Markle, que capturou as atenções de Harry quando ainda filmava a série Suits, e Nicola Peltz, ainda de rumo incerto, mas bancada pela fortuna de 1,6 bilhão de dólares do pai, Nelson Peltz, também investidor em cinema.
DENTE DE SERPENTE
As acusações de Brooklyn Beckham são chocantes mesmo para quem já percebeu o aspecto performático e promocional das reuniões familiares da família dele. Um filho que se volta contra o pai faz parte do arsenal de dramas mais conhecido pela humanidade.
O impulso edipiano até compreensível no caso de Brooklyn, um jovem de talento incerto, ridicularizado nas redes por tentar se apresentar como fotógrafo e chefe de cozinha, sem as respectivas qualificações, e confrontado com a imagem paterna, o ex-jogador famoso que soube usar suas vantagens, inclusive o talento e a beleza, para acumular uma fortuna calculada em 700 milhões de dólares.
Atacar virulentamente a mãe é muito mais raro e Victoria virou o alvo principal do filho mais velho, num caso que atraiu o tipo de publicidade que ela e o marido, tão especializados nas artes da autopromoção, não desejariam. Beckham acabou de ganhar o título de cavaleiro do Império Britânico, uma honraria pela qual batalhou durante décadas (um problema nebuloso de declaração de renda atrasou o processo).
Agora, ele é sir David Beckham e a mulher, lady Beckham. É claro que já tem gente falando em Lady Macbeth. Ou pelo menos em outra referência shakespeariana, a frase do Rei Lear: “É mais afiado do que dente de serpente ter um filho ingrato”.
Ou teriam sido os pais ambiciosos demais? Ou ambas as coisas são verdadeiras? Escolham suas opções.