A atenção é finita. É uma moeda que gastamos tanto de maneira deliberada quanto descuidada. Cada ator que você pesquisa no IMDb, cada postagem no Instagram pela qual você passa, cada tuíte, mensagem de texto e prompt no ChatGPT compete pelos recursos do seu cérebro.
Ele fará o trabalho de liberar espaço na memória por conta própria, esquecendo seletivamente aquilo que considera desnecessário. Mas cabe a você aliviar a carga da atenção. Isso significa reconhecer a hora de se afastar, resistir ao impulso de abrir mais um aplicativo ou clicar em mais um link.
Você precisa mesmo perguntar ao ChatGPT do que são feitas as unhas dos pés ou cair em um buraco negro de hiperlinks infinitos da Wikipédia? Vale a pena gastar os escassos quinze minutos de pausa que você tem deslizando para a esquerda ou para a direita em um desfile rotativo de rostos sem corpo?
Com o mundo inteiro comprimido em uma tela, é fácil acreditar que você pode alcançar e tocar todos os cantos dele. Somos atraídos por esse fluxo constante de distrações, em parte porque resistimos ao tédio. Nós de fato odiamos o tédio. Na verdade, fugimos dele com uma intensidade quase patológica. Pode parecer exagero, mas existe um estudo que ilustra isso perfeitamente.
Os participantes foram deixados sozinhos por quinze minutos apenas com seus próprios pensamentos e um botão para se autoaplicar choques elétricos. Tudo o que precisavam fazer era ficar ali, pensando. Mesmo assim, mais da metade escolheu se dar um choque. Um sujeito particularmente inquieto apertou o botão cerca de 190 vezes nesse breve intervalo. Cento e noventa vezes! Você tem que se perguntar o que estava passando pela cabeça dele, se é que ainda passava alguma coisa no final. Se você estiver por aí, senhor 190 Choques, talvez eu possa convencê-lo a dar uma chance ao tédio.
O tédio é uma das experiências humanas mais importantes. É o empurrão que nos tira do sofá e nos leva para o ar livre. É a razão pela qual, enfim, pegamos o telefone e ligamos para o velho amigo com quem queríamos colocar o papo em dia. É o que nos leva a aprender novas habilidades, seja programação, culinária, tricô, robótica, o que for.
O tédio é como uma chave mágica, desbloqueando partes de nós mesmos que tal-vez nunca tivéssemos descoberto. E, no entanto, com frequência preenchemos esses espaços com o TikTok, o Instagram ou qualquer aplicativo que esteja em destaque na tela inicial. Da próxima vez que se pegar repetindo esse padrão, coloque o celular com a tela para baixo. Convide o tédio para sentar com você. Deixe que ele se infiltre e veja aonde ele te leva.
Ficar rolando a tela por tédio não proporciona um engajamento real. Serve apenas para preencher a lacuna por tempo suficiente para impedir que o tédio cumpra seu dever de inspirar à ação. Isso se reflete na nossa tendência a sermos multitarefas no meio digital, onde pulamos de uma atividade para outra.
Assistir TV enquanto mexemos no celular é um exemplo comum, mas é fácil nos encontrarmos fazendo malabares com três ou até quatro tarefas digitais ao mesmo tempo. Um filme pode estar passando ao fundo, enquanto folheamos um artigo no iPad, trocamos mensagens com um amigo e, sem pensar muito, deslizamos pelo Instagram, tudo isso ao mesmo tempo. Um ataque múltiplo ao nosso pobre cérebro.
No coração disso está nossa tendência natural a buscar estímulos. Os primeiros seres humanos passavam a maior parte do tempo garantindo comida e abrigo, então é provável que tivessem poucas oportunidades para sentir tédio. Viver em modo de sobrevivência significa estimulação constante, executando o tempo todo tarefas que nos exigem física e mentalmente.
Como resultado, talvez tenhamos desenvolvido a capacidade de sentir tédio apenas porque nossos cérebros em evolução se acostumaram a um fluxo quase contínuo de atividades. Ou talvez o tédio tenha oferecido uma vantagem evolutiva ao impulsionar os humanos ancestrais à ação, incentivando-os a explorar e talvez procurar plantas medicinais ou, quem sabe, flertar com um possível parceiro.
Hoje também fazemos malabarismos com nossas várias tarefas, mas a maioria delas está longe das atividades tangíveis e voltadas para a sobrevivência do passado. Nossas batalhas diárias envolvem passar o dia inteiro com chamadas no Zoom ou lidar com um ciclo perpétuo de roupa para lavar e guardar.
Estamos atados a uma sequência de tarefas mundanas que raramente nos proporcionam qualquer sensação de triunfo ou realização intelectual. Para compensar, empilhamos nossos dispositivos eletrônicos uns sobre os outros, espalhando nossa atenção por toda a gama de telas brilhantes.
O problema é que nosso cérebro não foi feito para isso. Ser um multitarefa digital pressiona nosso sistema de atenção a fazer algo para que a evolução não nos preparou: focar em várias coisas ao mesmo tempo.
Os sistemas de atenção moldam nossa realidade, determinando no que prestamos atenção e o que filtramos. Na maior parte do tempo, processos subconscientes decidem de maneira sutil quais informações chegam à nossa consciência. Essa seleção é responsabilidade do filtro de atenção, que opera em grande parte nos bastidores, determinando, em silêncio, quais detalhes da nossa vida cotidiana realmente percebemos.
É por isso que o som da geladeira funcionando passa despercebido ou o trajeto familiar até o trabalho se torna um borrão — seu filtro de atenção os apaga. Sem esse filtro, estaríamos paralisados em um estado de fadiga mental constante tentando processar todos os detalhes do ambiente ao nosso redor.
O problema é que, quando constantemente alternamos entre tarefas — em especial tarefas que exigem atenção, como ficar pelas redes sociais ou responder e-mails —, sobrecarregamos esse filtro de atenção. Cada mudança de foco significa reorientar a atenção enquanto você solta uma tarefa e pega outra, o que prejudica a capacidade de pensar com profundidade.
Seu cérebro não foi feito para ser multitarefa, então, abrace o poder do foco em uma tarefa só! Concentre-se em uma única tarefa por vez, mesmo no trabalho. Isso pode significar reservar momentos específicos do dia para responder e-mails ou mensagens em aplicativos. A segunda melhor opção, depois de focar uma tarefa só, é reduzir a carga multitarefa, eliminando o máximo possível de distrações.
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Há ainda outra consequência, mais sutil, desse nosso constante malabarismo digital. Quando prestamos atenção pela metade, somos menos propensos a questionar e menos propensos a desafiar o que vemos. Ser multitarefa não só exaure o cérebro, mas também enfraquece nossas defesas intelectuais.
* Rachel Barr é neurocientista, doutora em eletrofisiologia da memória e do sono e autora do livro Por Dentro da Mente, que acaba de ser lançado pelo selo Latitude da VR Editora
