Em meio ao Fórum Econômico Mundial, que reúne o suprassumo da elite mundial em Davos nesta terça-feira, 20, parlamentares europeus começaram a sugerir que as seleções nacionais de seus países boicotem a Copa do Mundo de 2026, que será sediada nos Estados Unidos — junto de Canadá e México. Os políticos defendem forçar um evento esvaziado como resposta à instabilidade gerada pelas ambições do presidente americano, Donald Trump, em relação à Groenlândia, ilha no Ártico vinculada à Dinamarca.
Embora o interesse de Trump pelo território seja conhecido desde seu primeiro mandato, o presidente subiu o tom nas últimas semanas. A Casa Branca defende que o gelado pedaço de terra seja comprado, mas, caso não haja outra alternativa, não descartou o uso da força militar. O debate em torno da questão tem incomodado líderes europeus, e o tema agora ameaça invadir os campos de futebol.
A discussão sobre um possível boicote veio à tona pela primeira vez na última sexta-feira, quando o parlamentar alemão Jürgen Hardt, da União Democrata Cristã (CDU), concedeu uma entrevista ao jornal Bild afirmando que uma ação contra a Copa do Mundo poderia ser “o último recurso para fazer Trump cair em si na questão da Groenlândia”, uma vez que o mandatário já deixou claro “o quanto a competição é importante para ele”.
A possibilidade de boicote não é mal vista pela população da Alemanha: 47% apoiam a medida, de acordo com uma pesquisa divulgada pelo instituto nacional INSA. O levantamento, que ouviu 1002 alemães entre 15 e 16 de janeiro, aponta que outros 35% rejeitam a ideia, enquanto 18% estavam indecisos ou não quiseram opinar.
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No Reino Unido, parlamentares de diferentes siglas manifestaram seu apoio a um possível boicote, enxergando a medida como uma alternativa de protesto válida. “Devemos enviar o máximo de mensagens possível ao governo Trump e ao povo americano de que existem certas linhas vermelhas em relação à preservação da soberania e dos assuntos internacionais”, disse o conservador Simon Hoare. “Se isso significa não ir à Copa do Mundo, então não devemos ir à Copa do Mundo.”
As falas de Hoare foram ecoadas na ala oposta pela trabalhista Kate Osbourne. “No ano passado, houve grande apoio público à campanha bem-sucedida para que Trump não discursasse no Parlamento. Precisamos ver o mesmo agora em relação à Copa do Mundo. Os EUA não deveriam poder participar, muito menos fazer parte da organização do torneio”, disse a parlamentar.
Já o liberal-democrata Luke Taylor apontou que o ocupante do Salão Oval não é um “homem racional” e responde apenas “vaidades, como visto na incrível saga do Prêmio Nobel”. Além de concordar com Hoare no que diz respeito ao boicote, foi além, defendendo o cancelamento da visita do rei Charles III aos Estados Unidos. As medidas visam “mostrar a Donald Trump que a única coisa à qual ele responde é o próprio orgulho”.
Embora a insatisfação de nações europeias com o chefe da Casa Branca seja crescente, nenhuma deu sinais de que pretende oficializar uma saída da Copa do Mundo. Em resposta às declarações de Hardt, o governo da Alemanha afirmou que a responsabilidade de um boicote é da federação alemã (DFB) e da FIFA, entidade máxima do esporte.
No que diz respeito ao debate iniciado por Hoare no Reino Unido, a secretária britânica de relações exteriores, Yvette Cooper, afirmou que Londres manterá um diálogo diplomático com os Estados Unidos, e que o “engajamento” entre o premiê Keir Starmer e o presidente americano já produziu efeitos, incluindo investimentos em tecnologia na casa dos bilhões de libras.