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Josh Safdie, diretor de ‘Marty Supreme’ explica a VEJA por que ‘Timothée Chalamet é um gênio’

Chega aos cinemas nesta quinta-feira, 22 de janeiro, o forte candidato ao Oscar Marty Supreme, ficção que se inspira em múltiplos jogadores de tênis de mesa dos anos 1950 para criar Marty Mauser, um jovem judeu que não aceita ouvir “não” quando o assunto é conquistar o título mundial do esporte. Vivido por Timothée Chalamet em sua atuação mais elétrica e exigente até então, o personagem ancora uma trama frenética que vai além do ping-pong e captura a excentricidade de Nova York no pós-guerra, berço de uma determinação propriamente americana que ainda pauta a cultura da maior potência mundial. Por trás da trama intrincada, o cineasta Josh Safdie passou os últimos oito anos trabalhando para tirá-la do papel. Em entrevista a VEJA, o cineasta comenta as semelhanças entre Chalamet e Marty e também detalha a pesquisa exigida pelo projeto, de histórias familiares até as milhares páginas de dez volumes sobre a história do tênis de mesa:

Timothée Chalamet foi contratado, em parte, por ser parecido fisicamente com o real tenista de mesa Marty Reisman, mas essa não é a única semelhança dele ao personagem. Quando percebeu essa confluência? Eu o conheci em 2017, antes do lançamento de Me Chame Pelo Seu Nome. Uma das coisas que imediatamente percebi foi a energia intensa que emanava. Ele estava com um amigo no canto da festa de lançamento do meu filme, Bom Comportamento, mas parecia distante. Era óbvio que ele gostaria de pular para fora da própria pele. Ele era muito sisudo, mas também cheio de piadas. Amava dançar e ser espalhafatoso. Gostava de celebrar, mas também ficava facilmente chateado. Me surpreendia que mais pessoas não quisessem explorar essas qualidades em cena, e portanto fiquei animado para fazê-lo. 

O livro de Marty Reisman foi apresentado a mim por minha esposa e me deixou impressionado por conta destes jovens nova-iorquinos. Meu tio foi um deles nos anos 1950, frequentava o clube Lawrence’s de tênis de mesa e conhecia todos esses caras: Saul Schiff, Lou Pagliaro e Dickie Miles, que era o melhor de verdade — o Reisman só pensava ser o melhor. O dono do lugar era Herwald Lawrence, um homem negro. O que meu tio me disse é que todos esses rapazes eram muito ambiciosos. Nenhum deles tinha onde dormir numa quarta à noite, mas tinham viagem marcada para Budapeste no sábado, onde ficariam no melhor hotel. Eles só se sentiam à vontade na glória e tinham ideias de grandeza com as quais ninguém mais se importava. Eles todos eram franzinos como Timothée. Alguns também eram dançarinos, assim como ele. Além do mais, acho que ele tem um rosto atemporal que se encaixa bem em um filme de época.

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Não só em cena, ele ecoa a personalidade de Marty enquanto promove o filme ao redor do globo. Sempre foi o plano lançar o filme com tanto alarde? Não. Eu costumava estar mais envolvido na estratégia de divulgação de meus filmes, mas o Timothée é um gênio e a A24 é genial por apoiá-lo. Ele simplesmente é o personagem. Sabe, eu também sou um vendedor, passei 10 anos insistindo para que Joias Brutas saísse do papel. Timmy se identificou com essa bagagem. A única coisa que discutimos assim que encerramos as filmagens foi o plano de colocar o rosto dele em uma caixa de cereal, porque o personagem revela esse sonho logo no começo e queria transformá-lo em realidade. Gosto muito que Timmy veja tudo isso como um grande evento sobre um homem pequeno com aspirações gigantes.

Edição limitada do cereal Wheaties vendida nos Estados Unidos
Edição limitada do cereal Wheaties vendida nos Estados UnidosWheaties/Divulgação

Ainda que Marty seja um sonhador, ele nem sempre é um exemplo de caráter, e há quem veja tamanha ambição com maus olhos. Na sua visão, qual o motivo para esse desconforto? É espinhoso. Não acho que ele seja um babaca, pois um babaca é alguém que deliberadamente machuca os outros. Não vejo um momento sequer no filme dentro do qual ele está ciente das consequências de suas próprias ações. Há sempre nuance. Ele está fazendo o melhor que pode para preservar seu sonho, porque é só a própria determinação que o mantém vivo. O que ele não percebe é que quando um sonho morre, outro nasce — que é de onde vem a beleza do final. 

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Acho que é intenso ver alguém tão ambicioso e sem remorsos porque não é comum. A maior parte das pessoas não quer testar limites. O que faz Marty amável é a paixão dentro disso. A vulgaridade do desejo existe ao lado de uma monomania narcisista, com certeza, mas o jeito que ele é capaz de inspirar os outros é viciante. Ele inspira Rachel (Odessa A’Zion) a deixar de lado uma vida de monotonia pré-determinada. Inspira Dion (Luke Manley) a ser um empresário e a não abaixar a cabeça para o próprio pai. Inspira Kay (Gwyneth Paltrow) a voltar a atuar. Até Milton (Kevin O’Leary), o vilão do filme, é tocado por ele no clímax da trama e forçado a lembrar das convicções sobre o próprio filho, morto na guerra.

Os ecos da Segunda Guerra Mundial são abundantes na trama, mas uma cena em especial é mais marcante: a breve história sobre a passagem de Bèla Kletzki (Géza Röhrig) por um campo de concentração, no qual despistou os nazistas para contrabandear mel. De onde ela surgiu? É a história real de um jogador de tênis de mesa polonês chamado Alojzy Ehrlich. Li sobre ele em um dos dez volumes sobre a história do esporte escritos por Tim Boggan. Este homem foi sete vezes campeão e sua história me pareceu mais poderosa e mais reveladora do que a maioria dos filmes de Holocausto que já vi, porque reflete a camaradagem do espírito judeu dentro dos campos de concentração. É algo também aplicável a qualquer comunidade pressionada a se unir e a acreditar. A engenhosidade do momento também é muito especial. A cereja no bolo é que mel é um afrodisíaco e que a cena precede o primeiro encontro entre Kay e Marty. O público assiste a esses homens lamberem mel do peitoral de Bèla, e é tão doce. Quando corta para a Gwyneth, a energia da sequência persiste.  

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