Em sua nova investida no cinema internacional, mais especificamente aquele falado em inglês, o diretor Karim Aïnouz reuniu um elenco hollywoodiano de peso para o filme Rosebush Pruning, selecionado para a mostra competitiva principal do Festival de Berlim deste ano. Com os atores Elle Fanning, Jamie Bell, Callum Turner, Lukas Gage, Riley Keough e Tracy Letts, a produção é uma sátira sobre uma família americana riquíssima e excêntrica que vive isolada em uma mansão na Catalunha, até o irmão mais velho (Jamie Bell) decidir morar com a namorada (Elle Fanning) — anúncio que desencadeia uma série de eventos “absurdos”, como diz o próprio diretor. Aïnouz não será o único representante brasileiro no evento alemão: seis longas nacionais, entre eles uma animação, foram escolhidos pela curadoria do festival, que acontece entre os dias 12 e 22 de fevereiro. A VEJA, o cineasta cearense celebrou a boa fase do cinema nacional e falou sobre seu novo filme. Confira:
Como se sente com essa nova conquista e esse momento para o cinema brasileiro e seus talentos mundo a fora? É uma felicidade acumulada. Não só pelos meus filmes, mas pelo que vem acontecendo com o cinema brasileiro nos últimos anos, pelo sucesso especialmente agora de O Agente Secreto. Existe uma onda muito animadora, e fazer parte disso me deixa feliz. Estou torcendo muito para que ela continue.

Por que lançar o filme no Festival de Berlim? Para além de uma questão estratégica da Mubi, que tem os direitos de lançamento do filme, eu sempre achei que ele tinha a cara de Berlim. É um filme com uma sensibilidade que dialoga com o festival e com a cidade. Ele é uma sátira sobre a família tradicional, rica, branca — uma sátira corrosiva, quase implosiva, marcada pela irreverência. E irreverência é uma palavra que combina muito com Berlim. Sempre foi um festival que apostou em um cinema mais arriscado, e parecia o terreno perfeito para dar à luz a esse filme.
Parte do elenco, a atriz americana Elle Fanning está em um momento curioso trabalhando com diretores de língua não-inglesa — ela até está cotada ao Oscar pela atuação em Valor Sentimental, um filme norueguês. Como foi trabalhar com ela? Até me arrepia falar dela, sério. A Elle trabalha desde criança como atriz e ela tem uma compreensão impressionante do tempo dramático, do espaço cênico, do ritmo de cena. É uma das atrizes mais impressionantes que eu já vi. Existe uma cena longa, com muito diálogo, entre ela e o Callum Turner: ele tem cerca de 15 falas, ela apenas duas. E o modo como ela responde — a sutileza, a precisão — é algo realmente extraordinário. Ela é quem dispara a história: namora o filho mais velho, o herdeiro, e a família dele reage a partir do medo de perdê-lo, já que ele é de fato quem move a riqueza do clã. Além de extraordinária, a Elle é surpreendente na trama. Faz tudo isso com uma eloquência e uma presença de cena maravilhosas. É uma atriz de inteligência precisa para a cena.

Dirigir um filme em inglês traz desafios diferentes? É complicado, porque não é a minha língua materna. Existe sempre um desafio aí, um voto de confiança dos atores e da produção em mim. Sem falar que o roteirista é grego [Efthimis Filippou, indicado ao Oscar por O Lagosta], o diretor é brasileiro, os atores são americanos e ingleses. É um elenco muito diverso, num filme habitado por personagens americanos. O resultado ficou ótimo.
Callum Turner é um dos novos queridinhos do cinema mundial. O que ele traz para o filme? O Callum tem algo muito bonito, que é o mistério. Isso é uma qualidade fundamental para esse personagem. Apesar de ser uma estrela em ascensão, ele mantém uma aura misteriosa. Precisávamos de alguém com senso de humor preciso, mas também perigoso — e essas qualidades estão muito presentes nele. Existe uma imprevisibilidade, algo surpreendente, que me encantou muito.
O filme dialoga com uma espécie de trilogia. Pode explicar melhor? Eu passei um tempo investigando a subjetividade feminina com filmes comoO Céu de Suely e A Vida Invisível e senti uma necessidade muito forte de olhar para os personagens que eu entendia tão pouco — homens brancos, em posições diferentes de poder, quase monstros — e tentar compreendê-los. Junto com Motel Destino (2024) e Firebrand (2023), vejo esses três filmes como a investigação sobre três monstros de carne e osso: seja no passado, no presente e no futuro. Firebrand é um thriller sobre um rei. Motel Destino tem algo de noir e o homem tóxico é o dono do motel. E agora, Rosebush Pruning, que ainda não tem título em português, é uma sátira. É importante olhar para os personagens que habitam o nosso mundo hoje e se perguntar quem são essas pessoas. Esse foi um processo muito forte para mim.

Ao discorrer sobre a família tradicional rica americana pretende alfinetar, de alguma forma, o atual momento pelo qual passa os Estados Unidos nessa guinada republicana? O filme no fundo é sobre isso (risos). Começamos a pensar no filme em 2022 e filmamos em 2023. O filme gira em torno de um personagem tóxico, perigoso, corrosivo — o pai — cuja temperatura é pautada pelo absurdo. É uma história engraçada — eu espero que as pessoas achem graça — em que o absurdo é central. Se existe uma palavra para definir o estado das coisas hoje, é essa: absurdo. Especialmente nas duas últimas semanas, desde a invasão americana na Venezuela. Quando você pensa no mundo em que vivemos — o controle de grandes empresas de tecnologia e os homens perigosos no poder —, tudo isso está ali. Esse personagem é inspirado nas figuras que estão destruindo o mundo. O filme não é apenas uma anatomia do nosso cotidiano, mas também traz personagens que tentam intervir, que tentam mudar as coisas.